« Parte 5
O que estou dizendo até aqui é que é possível sim que as profissionais do sexo peguem SIDA com os seus namorados, mas que talvez seja muito simplista imaginar que é apenas assim.
Duas das últimas meninas que eu conheci, e que morreram de SIDA, nem namorado tinham, pelo menos não que ninguém soubesse. Mas é claro que assim, meio que na última hora, sempre surgia um namorado traste em quem colocavam a culpa.
Não estou dizendo que não pode ser assim, mas que em alguns casos pode ser mais simples ser assim também. Mais fácil do que morrer pela actividade, como os soldados que vão para a guerra, porque prostituta que morre com SIDA não é heroína de coisa alguma, e ninguém quer ser lembrada assim.
Pelo menos dos casos que conheço, posso dizer que menina que morre com SIDA trabalha, até ao último minuto. É claro que, para aquela que não faz nada sem preservativo, é simples ir fazer exames de sangue, porque sabe que não vai ter nada. Mas, aquela que tem consciência do seu comportamento de risco, raramente fará exame, porque tem medo da notícia ruim. Geralmente, quando acontece, foi por outra coisa qualquer, que a obriga a ir ao médico, daí ela faz o exame com o cu apertadinho, já com medo de dar alguma coisa. E porque ela foi adiando a vida toda o exame, quando descobre já não demora muito e ela morre.
E às vezes pode ser isso mesmo, pode ter sido zelosa nas relações com os clientes, mas descuidada com as relações pessoais, e então pegar SIDA do namorado.
Todavia, se já estiver muito desenvolvido o vírus, quem poderá dizer que não foi ela também a passar o vírus para ele? Digo, quem está de fora apenas ouve o que ela diz, não o que foi dito pela boca do médico, então é claro que, mesmo que ela tenha passado o vírus para o namorado, o tal namorado que ninguém conhece e que ninguém viu, a história vai terminar assim, ela como vítima, como sempre.
Não estou dizendo que não há situações em que a prostituta não seja vítima, sei que há, e há muitas, muitas situações. Mas há situações também em que ela se vitimiza, ou se habitua a poder se fazer de vítima perante as situações. Você é vítima daquilo que não podia controlar, e não daquilo que podia.
Também não estou querendo aqui colocar a profissional do sexo como grupo de risco, pelo contrário, sou a primeira a dizer que não, a querer desmistificar e retirar o preconceito atribuído à profissional do sexo.
Apenas estou esclarecendo que qualquer um pode ser infectado, ou transmitir doença para alguém, se fizer algum tipo de relação sexual desprotegida.
Mas é facto que, se uma profissional do sexo pega SIDA do seu namorado, ela é menos penalizada, ou “mais vítima”, do que se disser que foi do cliente. Porque temos uma sociedade conformista com os males, principalmente no que diz respeito aos grupos que estão à margem. Para a sociedade, se ela pegou SIDA de um cliente, era apenas um risco da actividade dela, algo que tinha mesmo que acontecer. Mas se pegou do namorado, aí já não era risco não, coitadinha, porque com o namorado não era suposto pegar SIDA. É assim que pensam, assim que classificam.
As próprias colegas, em volta, irão ficar aterrorizadas, e excluí-la de alguma forma. Ou você acha que alguma menina vai querer atender cliente daquela outra que está com SIDA? Qualquer um deles, que esteve antes com ela, pode ter sido aquele que lhe passou SIDA. Falar que foi um namorado, portanto, também ajudará a reduzir a exclusão, até porque, se ela teve um comportamento de risco com vários clientes, ou talvez com todos ou quase todos, ela não vai saber apontar este ou aquele como responsáveis.
Mas antes de tudo é necessário saber que, numa relação sexual entre duas pessoas, os responsáveis são os dois.
É preciso mais consciência, mais responsabilidade, porque em certas coisas na vida, meus amores, não é possível voltar atrás.
Esta série termina aqui.


















