« Parte 1
E não só. Fora os pontos com os quais discordo, é facto que ela é uma mulher muito inteligente, e que sempre manifestou esta inteligência através dos seus posts.
Entretanto, até pouco tempo atrás, a identidade da autora do blog Belle de Jour era desconhecida. No meu caso, tenho um “nome artístico” mas estou acessível às pessoas, dado que os clientes ou aspirantes a clientes podem contactar-me e marcar encontro comigo - e inclusive constatar, de certo modo, se sou realmente o que sou ou se sou uma velhota de 90 anos fazendo se passar por uma acompanhante massagista em Lisboa. No caso dela não era assim, não havia referência a quem era ela enquanto acompanhante, o que de certo modo também é algo inteligente porque ajuda a manter o mistério ou evitar decepções.
Todas as acompanhantes que escreveram livros - ou “quase”, se contar com aquelas que não cheguei a conhecer -, excepto eu e a Brooke, acabaram por deixar a actividade enquanto acompanhantes e revelaram as suas reais identidades ao mundo. Isso era algo que eu já tinha dito desde o princípio: não o faria porque não acho que uma coisa tem a ver com a outra, eu nunca vi médico ou psicólogo deixarem suas actividades só porque escreveram um livro.
Agora entretanto, nos últimos tempos, a Brooke deu a cara, por iniciativa própria. Diz ela que já estava até se sentindo paranóica, e de repente resolveu “se entregar”.
Particularmente, acredito que a Brooke talvez tenha chegado à mesma conclusão que eu no que diz respeito à vida de acompanhante e de autora. É verdade que ela também é investigadora, mas, sobre a vida de autora e de acompanhante, acabam por ser muito incompatíveis. A vida de acompanhante exige sigilo, anonimato, confidencialidade, segredo, enquanto que a vida de autora exige muita coisa que está relacionada com a exposição, não com a fuga, ou seja, uma coisa acaba entrando em conflito com a outra.
É que vai pintando oportunidade, muita coisa legal, não para a pessoa que você é mas para a acompanhante que é você, e essas coisas acabam exigindo uma certa exposição, e, aquilo que não exige exposição, sempre te coloca numa posição confusa, delicada, insegura, porque afinal de contas você vai estar fazendo algo sempre de pé atrás, com medo de se expor mais do que aquilo que devia.
Ter revelado a sua identidade com certeza que vai ajudá-la nisso, a encontrar um equilíbrio para a sua vida enquanto autora. É uma coisa que eu não faria, os pesos da minha balança são outros, mas respeito a decisão de quem o faz.


















