Note… Eu não sou fã do Paulo Coelho, e já disse isso aqui. Aliás, disse isso aqui inclusive porque achava curioso porque todo “cliente” que eu tenho - estou falando sobretudo dos antigos -, quando vínhamos a falar de livros me perguntava: “Você é fã do Paulo Coelho, não é?”. A pergunta, claro, era completamente inofensiva. Só perguntavam isso porque achavam que, afinal, toda brasileira devia ser fã do Paulo Coelho. Mais do que isso… muitos dos “clientes” que recebi me contavam que tinham estado com alguma outra garota de programa e que estas eram fãs do Paulo Coelho, tinham sempre um livro dele na cabeceira, ali mesmo ao lado da cama onde se procede o coito.
Ou seja… É claro que era completamente natural me perguntarem se eu era fã do Paulo Coelho. Paulo Coelho para eles era íntimo, afinal muitas vezes fizeram sexo num quarto onde um livro do Paulo Coelho também presenciava a sua intimidade.
Mas não sou não. Mas dizer que eu não sou não quer dizer que deteste Paulo Coelho, que odeie Paulo Coelho, etc. Estou falando nisso porque, afinal, é o que vejo por aí.
Não sou fã do Paulo Coelho simplesmente porque não sou. Porque o tipo de livro que gosto mesmo de ler é outro. (Assim como por exemplo quem não gosta de ler romance mas gosta de ler ficção científica). Que o tipo de autor que gosto tem outro tipo de estilo. Mas isso não significa uma aversão ao Paulo Coelho, é apenas uma questão de gostos mesmo, e cada um gosta do que quiser gostar.
Gostos… cada um tem o seu e tem direito de ter o seu. Quanto aos meus, a questão é que gosto de autores sacanas, debochados, misóginos, meio alienados, aquele tipo de alienado com quem você conversa e vê que, afinal, o alienado é você, não ele. Aquele autor que tem aquele tipo de ideia meio louca sobre o mundo, mas que depois você acaba percebendo: caramba, e não é que esse cara tem razão?
E da mesma forma que não sou fã do Paulo Coelho, que não saio correndo para comprar todo livro que ele publica, não desrespeito quem possa ser fã, quem possa sair comprando todos os livros dele.
Principalmente aquela turma dos pseudo-intelectuais adora ficar criticando Paulo Coelho e as pessoas que lêem Paulo Coelho. Pô, deixa as pessoas lêem o que elas quiserem, caramba! Aí você diz uma coisa dessas e alguém te responde: “Mas Paulo Coelho não é literatura, ninguém vai crescer culturalmente lendo Paulo Coelho”. Tá, e se for? Você consegue estimular as pessoas a lerem aquilo que você chama de “boa literatura”?
Na verdade não importa se é bom ou ruim, se tem ou não tem qualidade. O que importa, na verdade, é que as pessoas têm direito de gostar daquilo que elas quiserem gostar. E é isso que eu vejo que muita gente não respeita. E, conforme já disse aqui no blog, ninguém pode incutir um sentimento em alguém. Eu não posso te apontar com o dedo a mulher por quem você deve se apaixonar, com quem você deve se casar, etc. E livro também é isso, uma espécie de casamento. Alguém até pode te sugerir um livro, mas ninguém pode fazer você se apaixonar por um livro.
É o mesmo que alguém me criticar pelo facto de eu ler Henry Miller, de eu adorar Henry Miller, e vir me dizer que Henry Miller é um autor pornográfico. Tudo depende, na verdade, do ponto de vista. Eu, particularmente, acho que tem mais filosofia do que sexo nos livros de Henry Miller. Acho engraçado porque Henry Miller podia ser um cara que eu certamente odiaria. Alguém que, certamente, jamais pensaria em apresentar para uma filha minha. Malandro, do tipo que vive às custas do dinheiro que pega emprestado com os outros, grosseiro com a mulher com quem vive, galinha até dizer chega. Mas é curioso que, apesar de detestar tantas coisas nele, tudo vai fazendo sentido e até se tornando um motivo de graça (no sentido de encanto, não de piada). Henry Miller é um autor que venero, por ser tão odiável e ao mesmo tempo tão encantador. Sou capaz de ler o mesmo livro do Henry Miller 2, 10, 20 vezes. Henry Miller escreve sem freio, como se nunca tivesse um editor que lhe dissesse “é preciso cortar uma parte, o livro vai ficar muito grande e caro para o público”. Estou com o Sexus na minha cabeceira, tem mais de 500 páginas, mas se você ver o tamanho da letrinha logo teria a certeza que, se estivesse num tamanho mais legível, teria pelo menos umas 1000. Henry foi muito criticado enquanto escritor, não só por ser considerado pornógrafo, mas por ser na maioria das vezes autobiográfico, o que fez inclusive que desse uma resposta assim: «Para quê procurar personagens ou situações imaginárias, se a minha vida era real e mais importante do que tudo que pudesse inventar?» Sexus, na edição francesa de 1950, só conseguiu sair com demasiados cortes, tantos cortes de forma que a pessoa mais casta nada teria para criticar, mas mesmo assim, a obra acabou sendo proibida no mesmo ano. Censura, preconceito, limitação. O que eu acho? Henry Miller é um autor muito complexo, com ideias que até hoje estão à frente do tempo, e que muita gente não terá capacidade de compreender. E, por isso mesmo, sempre será muito mais simples denominá-lo como um pornógrafo. Eu só tenho pena, a única pena mesmo que tenho é que, ao contrário de Paulo Coelho, Henry Miller passou a vida toda tendo que ficar pedindo dinheiro aqui e ali, se tornando famoso depois de morto, mas não colhendo todos os frutos das suas obras enquanto era vivo. Acho engraçado ele falar disso num livro, que ele realmente, ao contrário do que todos os seus amigos pensavam, tinha intenção de pagar o dinheiro que ele pegava sempre emprestado (quem lê Henry Miller sabe, esta é uma característica constante dele, está sempre pegando dinheiro emprestado aqui e ali, tinha uma cara de pau enorme, como se fosse quase um dom). Foi muito engraçado quando num livro ele descreveu isso, do quão perturbada seria a cara dos seus amigos quando ele fosse realmente lhes pagar tudo aquilo que já lhe tinham emprestado. Henry, meu amado e odiado Henry, como adoro o seu cinismo!
O que eu já critiquei aqui, entretanto, foram as defesas - e o mesmo direi dos ataques - movidas sem fundamento algum. Como por exemplo um homem que me disse que Paulo Coelho era o melhor escritor brasileiro e, quando lhe perguntei qual livro do Paulo Coelho ele tinha lido, me respondeu que na verdade nenhum, e até se surpreendeu quando lhe contei que estávamos falando de um autor vivo. Ou daquela pessoa que vem me dizer que Paulo Coelho é o melhor escritor do Brasil - teve uma menina que me disse que ele era o melhor escritor do mundo - e aí você um dia conhece a estante dessa pessoa e só tem o quê? Paulo Coelho. Como é que ela pode dizer que ele é o melhor escritor do Brasil ou do mundo se ela só lê Paulo Coelho? Ela podia sim, dizer que ele é o melhor escritor do seu mundo, que ele é o escritor que ela mais gosta - inclusive porque é o único autor que ela lê - mas dizer que é o melhor do Brasil ou do mundo sem ter conhecido os outros é no mínimo uma piada. Não uma piada por ser Paulo Coelho, ela poderia estar falando de Gabriel García Márquez que o sentido seria o mesmo, não dá para fazer uma comparação de algo com o mundo se você não conhece o resto que já foi produzido no mundo.
Da mesma forma, acho muito estranho quando uma pessoa me diz que não gosta da escrita do Paulo Coelho quando, afinal, essa pessoa vem me revelar que nunca leu nenhum livro do Paulo Coelho.
Como disse, não é o meu tipo de assunto ou de estilo preferido. (E claro, só estou falando daqueles que já li, não tenho como saber se o Paulo Coelho mudou de estilo ou de temas nos seus outros livros se não li os seus outros livros). Mas eu já li Paulo Coelho, eu não abriria a boca para falar de Paulo Coelho se não tivesse lido Paulo Coelho. Gostei do “O Alquimista” e do “Verónika decide morrer”, li “As Valkírias” quando era criança (não me lembro nada da história), li “Na Margem do Rio Piedra eu sentei e chorei”, li “O Diário de um Mago” - achei, e isso é apenas uma simples opinião pessoal e não um ataque ao escritor, cansativa e angustiante a leitura -, li “Manual do Guerreiro da Luz” enquanto esperava por um autocarro em Braga, li “11 minutos” (que tinha a expectativa de que fosse o meu favorito dele, mas acabou não sendo, continuando os dois primeiros como na minha opinião os melhores que já li do Paulo Coelho), etc.
Tem gente que vem criticar Paulo Coelho pelo facto de ele falar de assuntos ligados à espiritualidade, e por repetir nos seus livros os conceitos de um outro escritor que já não lembro o nome. Para começar, um autor tem direito de escrever sobre aquilo que lhe apetece. Um leitor não é obrigado a comprar, compra quem quer. Sobre ter copiado alguém anteriormente, mesmo que seja mesmo verdade… será que isso aconteceu em todos os livros que ele escreveu? Não sei, eu não li o autor em questão para comparar, eu não li todos os livros de Paulo Coelho, logo não vou cometer um erro de fazer um “julgamento” em função do que alguém me disse.
No Cartaz Cultural dessa semana falavam sobre o Paulo Coelho, sobre “O Alquimista” ter entrado para o livro dos records como o livro mais traduzido, sobre o facto de ser um dos autores mais vendidos no mundo, etc.
Sinceramente? Ao contrário de muitas pessoas, eu fiquei muito feliz com isso.
Eu acho que a arte não precisa de regras, e que cada artista precisa da liberdade, sobretudo de uma tremenda liberdade para expressar a sua arte da forma que bem entende. Se é boa ou má literatura, se é ou não é literatura? Não importa, é arte, e arte cada um vê com os seus próprios olhos, cada um sente uma coisa pela arte.
Não sou aí desse mundo de regras do certo e do errado, do bonito ou do feio. O que é certo para mim pode ser errado para o outro, o que é bonito para mim pode ser feio para o outro. Ninguém precisa de falar para o mundo, uma pessoa só precisa falar para aqueles que lhe quiserem ouvir.
É como por exemplo este blog. Ninguém precisa vir nesse blog se não quiser, ninguém é obrigado a isso, muito menos esse blog abre sozinho no computador de alguém.
Liberdade, liberdade, é sobre isso que estou falando.
Aqui nesse post eu quis falar sobretudo de gostos, da liberdade que temos de gostar do que quisermos gostar. Mas quer saber na verdade o que me incomoda, independentemente de Paulo Coelho - ou outro escritor qualquer - ser literatura boa ou ruim? O que me incomoda, na verdade, é a hipocrisia. É saber que hoje um escritor - ou qualquer pessoa que seja - pode ser muito criticado, mas que se calhar, depois de muitos anos, e principalmente quando esta pessoa estiver morta, é que afinal esta pessoa será respeitada.



















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