Fera mesmo era aquele cara que, para escrever qualquer coisa, tinha que ficar molhando a pena na tinta a cada 4 ou 5 palavras que escrevia.
Eu já sou do tempo da máquina de dactilografia, quer dizer, sou do tempo do computador, mas como não tinha computador usava a máquina de dactilografia mesmo.
E gosto, confesso que gosto, tenho paixão por máquina de dactilografia. Claro, não é nada simples, nada mesmo. Você não tem, como no computador, a opção de apagar um erro num texto antes de imprimir; a máquina de dactilografia é impressão imediata. Se você cometeu um erro, um errinho só numa folha, não adianta, ou você usa o corrector - uma borracha ou o famoso “branquinho” - que vai deixar o seu trabalho com cara de trabalho porco ou, se você precisa mesmo causar uma boa impressão com aquilo, não adianta, vai ter que perder uma página de um lado e do outro já dactilografadas e ter que escrever tudo de novo.
É verdade que todo dactilógrafo já usou o truque de desenhar uma vírgula com um lápis, mas tem coisa que não tem jeito, você tem mesmo que jogar aquela folha no lixo e dactilografar tudo de novo.
Acho um charme usar máquina de dactilografia, mas hoje não uso não. Caramba, se perde muito tempo. Bom, pelo menos aqui, podendo usar computador, uso sim. Mas sei que, claro, se eu for para um lugar, como para a casa de uns parentes onde não tem electricidade, vou ter que usar a máquina de dactilografia mesmo. E claro, ao invés de apenas reclamar - porque eu sei que vou reclamar, a gente se habitua com outras coisas e depois já não se acostuma de novo a usar as antigas - eu também, no fim das contas, vou achar aquilo um charme.
Sabe no que fico pensando? Pessoas como Anaïs Nin ou Henry Miller costumavam escrever os seus textos e depois mandar para alguém dactilografar. Estava lendo isso num livro da Anaïs, o «Delta de Vénus» - ganhei do Delta -, ela dizia que aquela turminha toda daquela época, incluindo ela e Henry, até costumavam mandar os seus trabalhos para a mesma dactilógrafa. Aí eu fiquei pensando nisso… Se um Henry Miller já era fera naquela época, escrevia metros e sempre muito bem, e continuando hoje tão bom ou na maior parte das vezes melhor que muitos dos nossos escritores contemporâneos…. o que ele não faria, então, se hoje estivesse vivo e tendo um computador portátil?
Esse post faz parte de uma pequena série e terá continuação… Os assinantes da newsletter daqui do blog, que têm também o privilégio de de vez em quando poderem receber os posts antes que estes estejam aqui publicados, a esta altura já devem ter recebido este post e também o outro que será publicado à tarde aqui no blog…


















