7º livro do ano
As razões para eu ter gostado do livro Sexo Anal do Luiz Biajoni são várias.
Primeiro porque é ágil. A história não é morna (se eu estivesse com o livro na mão, teria até queimado os dedos) está sempre acontecendo algo, sempre deixando o leitor com vontade de saber o que vai acontecer. Li o livro numa tarde só, tem umas 200 páginas, atendia clientes e voltava para ler o resto.
Em seguida, porque é um livro agressivo, bruto, mas sem perder a sua leveza, uma leveza que faz você passar os olhos calmamente pelo texto, conhecendo cada personagem.
É um livro muito real. Ninguém pode dizer que é mentira ou fantasia nada disso que ele escreveu.
Lembra um pouco o Nelson Rodrigues, era impossível não ler esse livro sem sentir pelo menos um pouco dessa semelhança.
Também me lembrou alguns clientes específicos da época do sexphone. Há algumas pessoas que ligam para a gente contar histórias para eles. Eu adorava, porque mexia muito com a minha imaginação contar essas histórias eróticas ao telefone. A maioria das histórias eu inventava na hora, mas muitas das minhas colegas não conseguiam fazer isso, por essa razão geralmente contavam algo de algum filme, correndo o risco do cliente ter visto o mesmo filme que elas. Se elas tivessem esse livro em mãos, não teriam esse problema.
“Sexo anal” é um livro sobre sexo. Sobre sexo anal, obviamente, mas não só. Não é um livro doce, mas muito apimentado. Quem gosta de ler contos eróticos gostará de certeza desse livro. Mas não é um livro de contos eróticos. Pode-se dizer que é um romance, mas também não é um romance, é uma novela. O autor foi muito cuidadoso com os personagens. Enquanto lia o livro, eu parecia ver cada um deles à minha frente. Eu parecia estar dentro de cada cenário, eu parecia conhecer o sentimento de todos os personagens, eu parecia conhecer a forma com que falavam, a expressão facial de cada um deles.
Achei grande piada no aviso que o autor deixa nas primeiras páginas:
«Se você é meu amigo, parente ou conhecido, peço desculpas antecipadas pelo constrangimento. Se você parar de falar comigo depois da leitura dessa novela, vou entender perfeitamente. Não precisa mudar de calçada ou coisas do gênero, basta não me olhar na cara, eu vou entender. Ou faça de conta que não leu. Jamais vou perguntar a qualquer um “você leu minha novela”?, pois, apesar de não parecer, eu tenho bom senso.»
O livro começa com a Virgínia contando ao Luiz que vai operar:
- Operar do quê, Vi?
- Da hemorróida!
Ele acendia o cigarro e quase engasgou com a fumaça, rindo. Não gargalhando, rindo.
- Por quê? Está atrapalhando? Quero dizer… Está doendo quando fazemos?
- Tem dia que dói um pouco mais… Eu adoro dar por trás pra você… E agora estou um pouco incomodada com essa… essa… hemorróida! Eu posso operar e aí, quando estiver com o cuzinho novo em folha te dou… Vai ser quase um desvirginamento!
- Vou desvirginar Virgínia!
Apesar do livro ter começado numa conversa sobre hemorróidas, você não imagina o que vem depois disso.
Apesar de falar de sexo anal, apesar de ter muitas cenas sobre o sexo anal, o livro não é apenas sobre o sexo anal. O sexo anal, segundo a minha interpretação, serve apenas como ponto de referência para tratar de outros assuntos. Vamos lá, em primeiro lugar, a Virgínia, a nossa protagonista, gosta assumidamente de dar o cu. No decorrer da história, várias cenas ligadas ao sexo anal entrarão na vida dela: o médico que vai tentar obrigá-la a voltar a dar o cu para ele, o assassino que lhe diz que quer comer o seu cu, o sucesso que vai ter na carreira porque inicialmente seu chefe também quer comer seu cu, o comentário do colega de trabalho sobre as mulheres que dão o cu, etc.
Mais alguns trechos:
«(…)Num pulo, rápida como um raio, sem dar tempo para a reação da amiga, Ana tirou a calcinha preta e atirou para um canto voltando a ficar na mesma posição. Apanhou a mão de Virgínia que descansava no tapete e colocou de volta na bunda. Subiu um odor bom de sexo limpo.(página 33)
(…)Carlinhos era mais novo, tinha 16. E sempre era o primeiro nas brincadeiras de troca-troca. Mas sempre parecia gostar mais quando era a vez dele de dar. Quando estavam bem loucos de crack era comum que Carlinhos quisesse chupar o pau do amigo. Ele chupava, Dé gozava e o primeiro engolia tudo. Dé achava que era fome. Estavam sempre com fome.
A situação era de excitação. Não era sempre que matavam alguém e fugiam da polícia. Agora Dé estava ali, com o pau em cima de Carlinhos, querendo um boquete ou mesmo meter no rabo do amigo. (página 60)»
O livro fala sobre a hipocrisia, sobre as variadas fachadas, as variadas máscaras que a sociedade usa. Fala sobre a imprensa marrom, a manipulação da notícia. (Estou em dúvida se aqui em Portugal há a definição “imprensa marrom”. Acho que não, mas também não consigo me lembrar de ter visto nada relacionado a “imprensa castanha”, ou algo desse tipo.) Há a Virgínia que gosta de dar o cu e conta para o namorado que deu o cu para o médico, há o namorado que come a sua amiga e que está no fundo interessado por outra menina (e que nunca irá contar nada sobre isso para a namorada), há a menina que é virgem apesar da idade, devido a um trauma de quase ter sido violada por um tio na infância, há um podólatra, há uma bissexual apaixonada pela Virgínia, há um jornalista com um casamento de fachada, há um casal homossexual com SIDA, ou seja, os personagens são muito variados, tem de quase tudo (talvez faltasse apenas algum personagem adepto ao “banho marrom”) onde o objectivo não é criar grupos de acordo com cada atitude, mas mostrar particularidades, e na forma com que essas particularidades são reveladas (ou, na maior parte das vezes, escondidas), a forma com que cada um se comporta com relação à particularidade alheia (aceitando, rejeitando ou sendo indiferente). Fala sobre a violência, os relacionamentos, a vingança, os interesses, as expectativas, um mundo que gira em volta do sexo.
Será que eu conheço esse mundo de algum lugar?
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