Acabei de chegar da Feira do Livro. É, resolvi ir hoje. Cheguei lá por volta das 16:30 e fiquei rodando de um lado ao outro, como é costume. Depois fui para a sessão de autógrafos do António Lobo Antunes, esbarrei lá com a minha chefe (a MJC), cumprimentei-a e depois fui brincar de estátua na fila. É, a fila nunca andava, demorou uma hora e meia para eu poder olhar o Lobo Antunes nos olhos, para ele me dizer olá, eu responder oi, ele perguntar o meu nome e me entregar o livro autografado, obrigado, disse ele, obrigada, respondi.
Bem, e antes de chegar a minha vez, quando ia autografar os livros da senhora que estava na minha frente, ele ainda pediu desculpas para ela e saiu, um senhor tinha chegado, não descobri quem era, foram conversar fora da tenda. (Amanhã quando eu ler o jornal descubro, porque os fotógrafos logo se aproximaram quando os dois se cumprimentaram). Não demorou muito mais do que uns cinco minutos, voltou para a tenda junto com o mesmo senhor, pegou nos livros dela, parece que não entendeu o seu nome, já tinha notado pelo sotaque dela que era estrangeira, tanto que ela teve que anotá-lo na última página de um livro que ele tinha na mesa.
Aí chegou a minha vez, e enquanto ele olhava nos meus olhos - ou nos meus óculos de Pedro Abrunhosa - e assinava o meu livro, ele conversava com o mesmo senhor. Bisbilhoteira como sou, fiquei prestando atenção na conversa - eu sei, coisa feia ficar prestando atenção na conversa dos outros, mas o que mais podia fazer ali? Começar a assobiar ou cantar uma canção para não conseguir ouvir o que diziam? - ele estava perguntando se o livro dele na Holanda era de capa dura. Depois parece dizer que num tal país - não percebi se ainda falava da Holanda - a 3ª edição do livro tinha acontecido mais rapidamente que aqui. (Eu sei, pior que ficar prestando atenção na conversa dos outros é não entender exactamente tudo o que dizem, ou melhor… pior ainda é prestar atenção na conversa dos outros, não entender tudo, e ainda vir aqui e contar tudo o que ouvi!)
Não choveu. Aliás, estava um calor insuportável e eu com uma blusa de gola alta. No máximo podia arregaçar as mangas, não podia tirar a blusa porque estava em trajes muito indecentes por baixo. Mas não foi ruim ter ido com essa blusa, porque uns cinquenta minutos depois o calor foi substituído por um vento muito frio.
«Tudo bem que o Lobo Antunes é óptimo» - ou “maluco”, é o que curiosamente todo mundo me diz, comecei a me interessar por Lobo Antunes justamente porque todo mundo me dizia que ele era maluco, se me dissessem que ele era muito normal talvez eu nem tivesse pensado em ler nada dele, puro preconceito e influência, admito - «mas você ficou uma hora e meia, enfrentando o calor e o vento, só para conseguir um autógrafo dele?» É. Um autógrafo que dizia assim: Para Paula, um risco grande abaixo, Antonio Lobo, salta linha, Antunes, salta linha, 26.8.07. E voltei de lá jubilosa com isso.
Não, não sou dessas pessoas que coleccionam autógrafos. Muito pelo contrário, nem dou importância para isso. Sabe por que fazia questão de ir buscar o autógrafo? Porque acho que todo artista merece conhecer o seu público, saber quem gosta dele, saber quem compra suas obras. É o mínimo que posso fazer por uma pessoa que faz coisas belas.
Às vezes é mais fácil prestigiarmos o que vem de fora do que o que temos aqui. Mais que isso: às vezes as pessoas prestigiam o que vem de fora e fazem pouco do que têm em casa. Aí você diz: «Mas você não é portuguesa, por isso não tem que prestigiar o que há aqui.» Verdade, não sou portuguesa, mas é aqui que eu vivo, como, trabalho, compro, durmo… vou conhecendo a cultura e as pessoas, por isso é natural que eu me sinta “em casa”, assim como também é natural eu prestigiar alguém da minha terra quando este vem para cá, mesmo actualmente não morando lá. A gente vai se sentindo em casa quando vai se deixando possuir pela cultura.
Não creio que o Lobo Antunes é pouco prestigiado aqui, mas o meu papel era ir lá, manifestar com o meu “obrigada” a minha admiração, ao invés de manifestá-la com a minha ausência e com o meu silêncio.



















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