Depois de uma noite difícil, acordo com o telefone tocando. Atendo, ainda sonolenta, e era uma mulher a dizer em tom de ameaça: “Ganda puta”. Nem me dei ao trabalho de mandá-la tomar no cu pela manhã: desliguei o telefone, virei para o outro lado e voltei a dormir.
Isso foi no meio da semana ou coisa assim. Já tinha reparado que aquele número havia tentado me contactar há vários dias, e durante todos os dias, pela manhã. É de certeza a esposa de algum cliente, que cismou que estou andando com ele. Se calhar nem é cliente, apenas ligou para saber informações e esqueceu de apagar o número. Ou então foi cliente que atendi há 500 anos atrás, e a mulher anda a cobrá-lo por isso até hoje, só para atormentar. Ah, sei lá.
Facto é que, se já é ridículo uma mulher tirar satisfação da rival, a amante que anda com o marido… mais ridículo ainda é de alguma forma tirar satisfação da acompanhante, garota de programa ou prostituta que atendeu o marido. Aí já é o cúmulo do ridículo e da humilhação. Mas temos o caso Bragança, não é mesmo? tsc.
Sabe o que me irrita, de verdade? Por mais que eu seja humana com os clientes - eles não têm culpa dos meus problemas que me levaram a entrar nesta actividade -, por mais que os trate bem - porque trato bem quem me trata bem -, eu não deixo de, de alguma forma, encarar esta relação também de uma forma, digamos assim, profissional. De certo modo, e por mais carinhosa que seja com eles aqui dentro, estabeleço uma certa distância, para que eu não interfira na vida pessoal deles, e nem eles na minha. Muitas vezes, só para evitar certas chatices, que já conheço de trás para frente.
Não pensem que, de vez em quando, não tenha vontade de convidar um cliente ou outro para sair comigo, para ir ao cinema, ao teatro, etc., tudo à base da amizade que temos; mas não o faço, e se não o faço não é por ser fria, se crio limites não é por frieza, ou por não nutrir uma sincera amizade por eles, mas por conhecer certos enredos, certos guiões, e querer evitar, para ambos, algumas situações conflituosas. Não pensem que eu queria ser sempre tão profissional: queria poder me soltar, me soltar mais, mas não o faço, muitas vezes, também por saber como as histórias terminam, como tudo acontece. É que alguém tem que saber das consequências, não tem?
Então o que me irrita é isso: ser nesse aspecto tão profissional e, ainda assim, ser cobrada. Não estou aqui para roubar marido de ninguém, este nunca foi o meu intuito. Mas é claro que, se ela continuar insistindo em levar as coisas para o lado pessoal, eu também posso mudar de ideia e levar para o lado pessoal também.
Tenho certeza que ele não é nenhum dos meus clientes actuais. Como sei? Simples, eu sei quem são os meus clientes actuais. A voz ao telefone era de uma mulher idosa, com mais de 60, possivelmente, e os meus clientes actuais são mais jovens, entre os 30 e os 45, maioria, tenho um de 50 e poucos também, é o mais velho, mas este é estrangeiro e a mulher dele não sabe falar português. Daí perguntei para os meus clientes, algum deles podia ter uma esposa mais velha, mas por acaso não, os que são casados têm esposas mais jovens.
Deve ter sido um cliente antigo, dos tempos antigos, lá atrás. Se calhar ele era para mim apenas um cliente, onde, apesar do carinho e do respeito, predominava uma relação também profissional, com regras, limitações, horários. E se calhar por culpa dela, por insistir tanto em perturbar a minha paz por causa disso, eu deixe de vê-lo como um cliente… Porque, se ele não é mais meu cliente, como tenho certeza que não é, mas ela insiste em perturbar-me por causa disso, de achar que ele é meu cliente… se calhar o que ela quer é que eu me case com ele e encerremos esta questão de uma vez por todas. É que, se tem uma coisa que me chateia de verdade, é gente insistente. Gente insistente me faz pensar em alternativas para acabar de uma vez por todas com a insistência. E, em alguns casos, a alternativa acaba nem sendo a favor da pessoa insistente, mas pronto, foi a pessoa que insistiu…
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.
É que o homem, ou pelo menos maioria, numa situação de traição ou abandono, se esconde, de alguma forma, por vergonha. Já a mulher, traída ou abandonada, é - pelo menos maioria - capaz de espalhar a notícia pelos 4 ventos, ou de, pelo menos, criar eternamente um terror psicológico no parceiro que cometeu tal falha; ela quer que se saiba, e que não se esqueça, do quanto que ela é vítima. Ou do quanto pensa ser.
Sei que falando assim parece que nunca fui traída ou que nunca fui abandonada por ninguém. Ou que, talvez, nunca tenha amado o suficiente, é o que alguns pensarão. Se calhar, a minha forma de amar que é diferente. É que eu não sei amar um cara, sem me amar primeiro. Não sei respeitar ao outro sem me respeitar primeiro, é assim que acontece comigo.
Esse negócio de ficar se humilhando por outra pessoa, para mim é algo inaceitável. Não estou dizendo que nunca me humilhei pelo outro, já me humilhei sim, mas dentro daquele pequeno limite aceitável, gesto quase simbólico, que significa “gostei de você de verdade, você foi importante para mim mesmo, vai ser muito duro te perder”, mas não dentro do ilimitado “não posso mais viver sem você” ou “minha vida acabou sem você”. Sem drama, por favor, a vida já tem muita tristeza, a gente não precisa criar outras maneiras de ser infeliz.
É que ficar apelando é uma coisa ridícula, até falta de amor-próprio, diria. Não quero que um cara fique comigo por pena de mim. Não quero que um cara fique comigo por pressão, obrigação. Não quero que ele fique comigo por culpa. Não quero que ele fique comigo por qualquer outra coisa excepto o amor que sentimos um pelo outro. Não quero que ele se sinta obrigado a me amar, ou obrigado a cumprir uma promessa que fez há sei lá quanto tempo de pé num altar. Quero que o faça sim, que fique comigo sim, mas por amor, por livre vontade, não por obrigação, culpa, ameaça ou terror psicológico. Porque se for para sofrer, eu prefiro sofrer com dignidade. Porque eu até prefiro ser infeliz de verdade do que ser feliz de mentira.
Esse post faz parte de uma série e terá continuação.
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.
Vou confessar uma coisa: às vezes, em alguns aspectos, tenho vergonha de ser mulher, viu?
Vergonha de certos comportamentos que, sexismo à parte, acabam por ser tipicamente femininos, principalmente no que diz respeito a “tomar conta do seu macho”, como se ele não passasse disso, de um objecto que nos pertence ou de um cachorrinho que nos deve obediência.
Quando rola traição, excepções à parte, o comportamento acaba por ser previsível: choradeira, chantagem emocional, promessa de suicídio, usar os filhos, briga, discussão, escândalo, ameaça, tirar satisfação com a rival, vingança, terror psicológico, etc., quem não conhece a fúria de uma mulher traída? Melhor dizendo, quem não conhece a fúria de uma mulher traída, excepto o homem apaixonado, que não sabe que ela só faz tudo isso porque sabe que assim vai conseguir de alguma forma a atenção dele?
Chico Buarque entende, se não entendesse não teria escrito “Atrás da Porta”, que descreve o quanto uma mulher apaixonada pode ser perversa e cruel, puramente por amor. Porque tem isso também: os homens até podem ser muito maus, mas nós, mulheres, podemos ser cruéis, quando queremos.
Esse post faz parte de uma série e terá continuação…
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.
Uma nota muito irónica: em muitas das vezes - posso dizer que pelo menos 90% - em que fui contactada por mulheres, mulheres que julgavam que eu andava com os seus maridos, que era a acompanhante deles ou mais qualquer coisa… eu nem era. Bom, o que acontecia é que por vezes, a mulher ciumenta ou possessiva, se sentindo “a esperta”, descobria o meu número no telefone dele. Bem, e vocês sabem como nós mulheres - ou muitas de nós - somos, basta um fio fora do lugar para podermos construir todo um enredo em torno disso, a gente imagina tudo, às vezes até pira mesmo, e às vezes - eu mesma já fiz isso, também sou mulher, oras - briga por razões inúteis, por coisas que nem eram a realidade. O que acontece é que tem muito homem que contacta acompanhantes mesmo, e liga para uma, para outra, para mais outra, e alguns - não estou aqui defendendo, dizendo que não o façam, ou que nunca o farão - o fazem até por pura curiosidade, mas não significa que todos terão a coragem de seguir em frente. Em muitas, mesmo muitas das situações, acontecia isso comigo: o homem apenas tinha me ligado, nem era meu cliente. Não estou dizendo que ele não era cliente de outra garota, mas facto é que, para mim, ele tinha apenas telefonado. Para uma esposa, o homem ligar para uma acompanhante pode talvez significar alguma coisa, mas, para nós acompanhantes, sermos contactadas por um homem, não significa quase nada; sabemos que há um grande número de contactos diários, mas apenas isso não significará nem será garantia de um encontro de facto. Menos ainda, claro, falamos de outros contactos que são ainda menos próximos que o telefonema.
E das situações em que o homem era mesmo meu cliente, sabe o que era mais irónico? Na maior parte dos casos, se tratava de homens correctíssimos, apaixonadíssimos por suas esposas. Mas claro está, tem gente que está sempre procurando algum problema, algum defeito, como se quisesse encontrar uma desculpa para não ser feliz.
Personal Sex Trainer
Vou dar um exemplo… Vocês sabem que, por estarmos nessa actividade, muita gente pensa que nós somos muito experientes, seja no sexo, seja nas relações. (O que nem sempre é verdade, dado que tem muita gente a entrar na actividade, e não é o facto de estar na actividade que faz de uma mulher conhecedora dessas coisas, mas a sua experiência, dia após dia). Bom, e como a minha experiência não é propriamente pouca - eu não sei tudo, estou sempre aprendendo, mas não comecei atendendo dois clientes por semana, o que quer dizer que já vi muita coisa, o que quer dizer que, em um mês, fui capaz de conhecer coisas que muita gente não conhece em um ano ou mais -, ao contrário do que vocês pensam, há muita gente que me procura apenas por causa disso, da minha experiência. Seja para conversar, seja para pedir conselho, acontece. Como isso acontece? Assim, o cara me liga e vem aqui, e eu dou os conselhos que ele precisa. Me recompensa, claro que sim, exactamente como acompanhante, afinal de contas, por estar com ele este tempo, estou deixando de atender um outro, que me recompensaria com a mesma quantia. Mas na verdade eu não sou simplesmente uma acompanhante neste tempo, mas uma personal sex trainer. É claro que sim, eu sempre dou conselhos sobre como melhorar o sexo aos homens com os quais eu faço sexo, mas é claro que um homem não precisa de fazer sexo comigo só para obter esses conselhos, digo, aquele cara que não quer estar com outra mulher não precisa fazê-lo apenas para ter esses conselhos, e é por isso que tem homem que me procura e só quer os conselhos, mas não o sexo.
Aí deixa eu te contar: é claro que não é esta a minha ‘clientela‘ principal, claro que não, mas tenho sim, um bom grupo de homens que me procuram apenas por isso. Só não é um grupo que posso definir como frequente, porque, como vocês podem imaginar, as pessoas só te procuram naquela hora de emergência, ou durante uma fase, ou quando vêm que não podem mesmo resolver uma situação sozinhas. Mas procuram sim, vez ou outra aparece alguém que me quer, não enquanto acompanhante, não para partilhar da minha intimidade, mas para me ter enquanto personal sex trainer, e apenas obter o meu aconselhamento.
Homens me procuram quando têm dúvidas sobre o sexo, sobre o desejo, sobre si próprios e sobre suas relações. Sobre como melhorar as relações, pessoais, sociais, sexuais. Sobre como conquistar, ou reconquistar. Como melhorar a perfomance sexual. Sobre como melhorar o sexo, como satisfazer uma mulher, como retardar a ejaculação precoce, etc. Podia ensinar na prática? Claro que sim, se ele fosse meu cliente aspirante a amante, se desejasse sê-lo. Mas se ele me quer apenas como personal sex trainer, só vai ter a teoria, e esta teoria ele vai praticar com a parceira.
Não pense que é fácil para um homem admitir que tem dúvidas sobre sexo. Ou mostrar inseguranças. Ou mostrar que talvez não seja tão bom, ou que não sabe tudo, ou que tem algum problema por resolver. Ele raramente vai falar isso com a esposa, por medo de serem comparados, talvez não verbalmente, mas no imaginário, o que para eles já é motivo para gerar outra insegurança. Ele raramente vai falar sobre isso aos amigos, que sempre são os garanhões, os que pegam todas, os que têm os maiores pênis, os que jamais falharam na cama, etc. Não falarão com ninguém próximo sobre algo íntimo, até porque não querem ser deselegantes divulgando informação sobre uma relação que não acontece apenas quando estão sozinhos. Com quem então decidem falar? Com alguém que, certamente, não conheça apenas a teoria, que já tenha visto tanta coisa a ponto de não julgar, e, ao mesmo tempo, oferecer uma solução mais prática, quando esta é possível, e que também seja alguém ao mesmo tempo distante do círculo que ele pertence.
Há casos que nem querem conselhos, mas apenas desabafar. Às vezes apenas se sentem sozinhos, precisam de alguém que ouça, ou que compreenda. Em alguns casos, são apaixonadíssimos pelas esposas e não estariam aqui, sentados no meu sofá, se elas os ouvissem, ou talvez se elas, de uma vez por todas, acreditassem que são amadas por eles. Apenas não querem cansá-las com as conversas, apenas não querem que algo mal dito possa prejudicar ainda mais a relação, apenas não querem que elas se cansem deles.
Mas veja só: se elas soubessem que eles estiveram aqui comigo, alguma vez acreditariam que não houve sexo?
Muito sinceramente, há homens que não mereceriam castigo, até porque o que fazem é buscar a melhoria da relação com a parceira. Mas aí está, não acreditariam. Não acreditariam ou talvez nem queiram acreditar.
Mas garanto-vos que, nem sempre, uma coisa é aquilo que parece ser.
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Acreditem, comigo ou sem mim, o homem que o faz, frequentaria essas coisas de qualquer jeito. O homem que tem uma péssima esposa, o homem que tem uma óptima esposa também. O homem que tem uma mulher frígida, que o empurra a ter que fazer isso, o homem que tem uma mulher ninfomaníaca, que também o empurra a ter que fazer isso, porque nem tudo é questão de sexo, ou talvez de sexo com a mesma mulher. O homem que tem aquela esposa distante, e aquele que tem aquela que está sempre muito perto, porque de vez em quando um homem sente necessidade de respirar.
Não importa qual é a razão - e aqui, sem querer julgar, sou obrigada a dizer que, apesar de ter sim, muito homem putanheiro, conheço também alguns com razões muito legítimas, muito justas até, e inclusive situações em que o encontro com uma acompanhante nem tem nada relacionado com o sexo, queixos caiam! Há situações, devo dizer, em que vejo que, o encontro com uma acompanhante, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a este homem nos últimos tempos, ele precisava realmente fazê-lo porque, sem isso, ele não teria forças de seguir em frente com ânimo e coragem. -, o facto é que, seja qual for, o homem que o faz, sempre o fará e continuará por fazê-lo.
… E se é para fazê-lo, muito sinceramente, é preferível que o faça comigo, e já teve esposa que me disse isso, e eu, não por ser mais nem menos modesta, mas por pura questão de lógica - o facto de por exemplo eu não aceitar qualquer tipo de relação sexual desprotegida, e isso independente se estamos falando de um cliente que conheci na semana passada ou um cliente com o qual convivo há anos; o facto de, apesar de não ser de propósito, ser capaz de sentir carinho pelas pessoas, mas não me apaixonar com facilidade, o que significa que eu não sou propriamente um risco no que diz respeito a fazer com que um homem deixe de ser um cliente para ser um namorado ou marido; o facto de eu ter consciência de que o meu papel, enquanto acompanhante, não é substituir o que quer que seja na vida deste homem, mas no máximo ser um complemento na vida dele, e de esta consciência determinar toda a minha forma de atendimento e postura no sector; etc. - tive que concordar com isso.
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Comigo ou sem mim, o homem que o faz, frequentaria mesmo essas coisas, minha gente. Aliás, a minha presença seria completamente dispensável, porque nesse tipo de coisa, mais cedo ou mais tarde, acabamos por descobrir que, por grande parte, somos mesmo substituíveis, ou vocês acham que, quando eu sair disso, os homens que eram meus clientes farão votos de castidade e jamais recorrerão a acompanhante alguma? Se você pensa nisso, meu caro ou minha cara, ou você acredita no meu poder muito mais do que eu mesma acredito, ou então você não conhece nada dos homens e da relação dos homens com as mulheres, sexo e entretenimento adulto. Porque muito pelo contrário, o que acontece é que, quando uma acompanhanteanunciasair da actividade, a preocupação de muitos homens é perguntá-la se recomenda alguém, se recomenda acompanhantes iguais a ela, se vai deixar alguém em seu lugar. É duro saber isso, é duro até para mim - acreditem, eu demorei a engolir essa realidade, o amor-próprio da gente demora a digerir certas coisas - mas ou uma pessoa encara a realidade ou ela morre de desgosto.
Me perdoem se estiver a ser convencida - bom, até acho que estou, risos, risos- a ter que dizer uma coisa dessas, mas só estou repetindo o que não uma nem duas, mas com certeza centenas de pessoas já me falaram: o sector, comigo, pelo menos tem alguma dignidade e transparência. Concordo que, de certa forma, ter revelado alguns dos segredos do sector, ter mostrado uma visão daquilo que acontece por dentro, e que não é apenas luxo, glamour e facilidades diversas, ajudou sim, com certeza - e mesmo quando eu mostro um lado que não é tão cor-de-rosa o quanto muita gente pensa ou quer acreditar que é - a gerar uma percepção mais humana sobre quem está aqui dentro - nós escorts, garotas de programa, meninas de convívio ou prostitutas, não apenas enquanto carne, mas enquanto pessoas reais, como quaisquer outras -, o que faz com que, de certo modo, pelo menos as pessoas já não julguem aquilo que não conhecem em função daquilo que pensam que uma coisa é ou deixa de ser, o que colabora, inclusive, com a relação clientes-acompanhantes. Lembrando que é uma actividade relacionada com a intimidade e com o sigilo, poucos serão os que se propõem a falar sobre o assunto de forma frontal e transparente, até porque falar sobre isso pode representar prejuízos para quem se expõe em forma de desabafo. Falar tão sinceramente pode gerar desafectos e más interpretações, falar sobre sexo e sobre intimidade pode atribuir a mensagem de vulgaridade que é consequência de uma sociedade hipócrita, castradora e misógina, mas acreditem que, quando resolvi abordar tantos assuntos aqui com a alma aberta, o objectivo foi sempre este, a transparência, porque sei que, só falando sobre tais assuntos, na primeira pessoa, posso ajudar a quebrar alguns preconceitos, inclusive alguns dos meus.
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Um dia um jornalista me perguntou se não me sentia culpada por, de certa forma, estimular o homem a procurar acompanhantes. Tipo, se não sentia que era uma má influência ao casamento destes mesmos homens.
Respondi que ninguém pode julgar ninguém. Ninguém sabe no que vai na alma e no coração de outra pessoa, ninguém sabe das motivações das outras pessoas, e aí é muito fácil julgar, estabelecer o que é certo ou errado, apenas porque o outro tem um defeito que a gente não tem.
Eu ficava grilada no início sim, ficava preocupada porque só quando você entra num puteiro que você vê a quantidade de homem que recorre a esse tipo de coisa, sabe? Para mim foi um choque, foi um terrível choque, porque quando a gente está de fora não faz noção, não faz a mínima ideia da quantidade de homem que faz isso, ou então imagina que só os esquisitos que o fazem, não o homem normal, o que convive com a gente, ou até mesmo o nosso homem.
Lembrei de escrever sobre este assunto porque ontem mesmo acabou por rolar um comentário sobre isso ao telefone. Era uma amiga minha, que já foi do babado há muitos anos atrás, mas depois se casou, não deu certo e casou de novo, e agora era a filha dela a se casar, e por isso ela estava a aconselhar a filha em relação ao marido, ou melhor dizendo, em relação à vida sexual do homem português. E foi o que ela disse para a filha: «O português, minha filha, é um óptimo amigo e um óptimo amante, mas um péssimo homem para se casar, porque a maioria é putanheiro.»
Algumas pessoas ficam com raiva quando eu digo isso, ficam indignadas, mas eu fico pensando também se, no fundo, elas não sabem que o que eu digo é verdade. Claro que não, claro que não é todo o português que é putanheiro, talvez você aí, que está lendo esse texto e se sentindo indignado porque afinal nunca esteve com nenhuma outra mulher excepto a sua, talvez mais um ou outro, mas não pense que o seu vizinho, seus amigos, seu pai e seus irmãos não o façam, apenas porque são pessoas que fazem parte do seu círculo, porque será muito comum que todos à sua volta o façam, apesar de nem sempre ser possível descobrir que sim, porque boa parte será capaz de negá-lo até à morte.
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Então, como estava dizendo, fazer um site para um acompanhante dá um certo trabalho. Afinal de contas, o meu trabalho não é igual ao trabalho daquela empresa que a Beth contratou para fazer o seu outro site não, eu faço é tudo, exactamente tudo, não recebo tudo quase pronto bastando um copy/paste para dentro de um layout (que ainda por cima não está optimizado nem preocupado com a acessibilidade).
Começo do início e faço tudo, tudo mesmo.
Para a construção do site do Eduardo, precisei de dois dias, e os processos foram estes:
1º dia:
- Parte 1: Conversa informal pessoalmente
Quando a Beth me falou do Eduardo, fui eu a oferecer que fazia um site para ele. Mas eu não tinha como fazer um site se não o conhecesse pessoalmente, porque, afinal de contas, eu tinha que captar a sua essência, os seus objectivos, etc., para fazer um site para ele. Uma coisa é fazer um site para um acompanhante, outra coisa é fazer um site para “o acompanhante” ou para “a acompanhante” X. A diferença? Se eu começo a fazer um site pensando que estou fazendo um site para um acompanhante e não para o acompanhante, este acompanhante será apenas mais um, quando o objectivo não é este, o objectivo é que ele seja “o acompanhante”.
Ali, sentados numa mesa de um café, eu fui captando a sua essência, enquanto pessoa mas também enquanto profissional. Fui dando umas dicas, e ele aceitou, mas claro, teria a liberdade de não aceitar também.
O que fui falando foi de acordo com a vasta experiência que tenho no sector. Todavia eu tinha que ter a noção exacta de que o acompanhamento feminino e o acompanhamento masculino têm as suas diferenças, principalmente em termos de mercado. Eu tinha então que saber disso e buscar soluções dentro daquilo que conhecia.
Em termos de honorários, ele não cobra por exemplo o mesmo que eu. Mas esta foi uma dica que lhe dei: agora com a exposição na web, comece com honorários mais baixos mas, com o tempo, depois de construir a sua carteira de clientes, depois que for se tornando mais conhecido, vai aumentando. O site faz muita coisa sim, mas a melhor publicidade de um acompanhante, independente de ser homem ou mulher, é o que acontece no acto de companhia ao cliente.
- Parte 2: Concepção da ideia do site
Este é um processo que primeiro acontece dentro da minha cabeça. Ao penar no site, estas eram as primeiras ideias que tinha:
a) Não queria, apenas por se tratar de um homossexual, ir para o caminho da vulgaridade. Não faria o mínimo sentido se o tipo de clientes que se pretende é outro. Quando ele me disse por exemplo sobre tirar fotos do seu pénis erecto, eu achei melhor não fazê-lo. Pode ser erótico, pode ser bonito… mas eu não queria que ele fosse visto apenas como um homem de pinto grande, mas como um homem cheio de qualidades, que é o que ele é.
b) Não queria que fosse um site parecido com os outros.
- Parte 3: A escolha do nome do site
a) Eu sei que podia colocar apenas o nome Eduardo Tavares, mas apenas o nome não traria o resultado que queria, muito menos iria expor claramente os propósitos do site.
b) Hoje há muitos acompanhantes masculinos que atendem mulheres e casais, alguns deixam bem claro: “apenas mulheres e casais”. Não é este o caso do Eduardo, ele é homossexual e só atende homens mesmo. Em função de haver então tantos acompanhantes que atendem apenas mulheres e casais, eu achei necessário que fosse um nome bem forte, e que expressasse claramente isto, ou seja, que ele atende um público masculino. Então ficou o endereço: gayescortportugal.wordpress.com.
- Parte 4: Criar e-mail e site
Crio o site numa conta dele, para que, mais tarde, ele possa fazer o que quiser no seu site. Eu só fico com o acesso para esta fase inicial, mas depois o site é dele, totalmente dele, tem os endereços de tudo, o nome de usuário, a senha que pode mudar quando quiser. Já passei para ele todos esses dados.
É por isso que prefiro fazer um site no Wordpress ao invés de construir um site em html, entre outras vantagens. A questão é que, se faço por exemplo um site em html, não será possível, para quem não sabe editar códigos em html, mexer no próprio site depois, enquanto que numa plataforma para construção de blogs é tudo muito mais fácil.
- Parte 5: Desenho do site
Este é um desenho que faço na minha cabeça ou num papel, pensando em quantas páginas terá o site, onde vai estar o quê.
- Parte 6: A escolha do layout
Não escolhi um layout e deixei assim. Fui testando vários, até encontrar aquele que melhor se adaptasse ao desenho do site.
- Parte 7: Os primeiros textos
Comecei a escrever o texto, e cada palavra ali tem um objectivo concreto.
Ao escrever o texto, tinha a noção do seguinte: a maior parte dos clientes dele não são homossexuais assumidos, mas, a maioria mesmo, homens casados e homens que têm uma vida dupla. (Por isso insisti tanto nas palavras sigilo e discrição…)
É claro que, se um homem está com um outro homem, se ele é casado é bissexual ou no mínimo heteroflexível. Mas eu não queria colocar isso lá, colocar por exemplo “homossexual atende homossexuais, bissexuais ou heteroflexíveis”, até porque não é porque um homem é homossexual, bissexual ou heteroflexível que deixa de ser homem - ser hetero, homo ou bi é a sexualidade, a opção sexual, não o sexo de uma pessoa - e eu não queria que a linguagem pudesse causar conflitos.
Decidi que deveria haver uma página chamada “Condições”. Sabendo dos maus tratos e do preconceito sobre os homossexuais, achei importante falar sobre a homofobia nesta página, sobre o respeito ao outro e da importância disso tudo.
Eu tinha que pensar em tudo, em cada palavra, em cada detalhe.
…
Isso foi o que era possível fazer no primeiro dia. Ainda não tinha a foto dele, ainda não tinha os dados para colocar no perfil, ainda não tinha o número do telemóvel que ele queria que colocasse na página.
Num próximo post falo sobre o que foi feito no segundo dia, ou seja, ontem desde às 7 e pouca da noite às 7 da manhã de hoje.
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.