Já estou sabendo da manifestação - e da intenção da participação dos trabalhadores do sexo - já faz tempo. Não me manifestei sobre o assunto porque, simplesmente, em questões políticas eu não me envolvo.
Acho muito interessante o trabalho das Irmãs Oblatas e de todas as outras instituições envolvidas, mas eu nessas coisas prefiro não me envolver.
Não sou contra quem se envolva, até acho bem nobre quem o faça. Eu que, nesses aspectos, prefiro estar assim, isenta, acho que é esta a palavra.
Não estou interessada em direitos profissionais, mas em direitos humanos, acima de tudo. Não vejo como ser reconhecida como trabalhadora se antes não sou nem mesmo reconhecida enquanto ser humano. Para falar a verdade, nem acredito nisto, digo, nem acredito que tão cedo uma prostituta será, realmente, reconhecida enquanto ser humano. É que, para isso acontecer, tinha que mudar muita coisa, que começa lá atrás.
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.
Então um cara estava me perguntando um tempo atrás:
«Imagina que vou numa casa de convívio. Vou porque quero sexo, ela está lá porque precisa de dinheiro e vai me oferecer o sexo que preciso. E ponto, não queremos ser amiguinhos, nem eu dela e nem ela de mim, eu dou o que ela quer, ela me dá o que quero, é uma troca justa e consciente de ambas as partes, há algo de desumano nisso?»
No que eu estava explicando para ele: Vocês não precisam, obrigatoriamente, se tornarem os melhores amigos apenas porque foram para a cama. O que quero dizer, apenas, é que não são e nem devem ser inimigos, ou seja, não devem se comportar como tal.
…
É claro que não estou falando de clientes de escorts, cuja postura não tem nada a ver com esse post ou com o anterior. Mas se insisto em falar no assunto é porque, como disse, para mim não há diferença, não há ninguém melhor que ninguém, e, o respeito, é algo que deveria ser dado a todos.
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.
«(…)Mais uma vez tens razão, no que escreveste acerca das trabalhadoras do sexo. Pouca gente haverá que se preocupará com elas. Depois de fazerem sexo com elas, já nada lhes interessa, ou, melhor dizendo, só lhes interessa despejar os tomates e na grande maioria dos casos é a único motivo para se aproximarem delas. Não as vêem como seres humanos, e têm um total desprezo por elas. Depois são capazes de olhar ou fugir, como se fossem leprosos. É triste, muito triste.(…)»
Gostei da palavra que ele utilizou, leprosos. Porque de facto é assim: para alguns, a única coisa que interessa é o contacto sexual com a ‘prostituta’, mas depois existe aquele nojo dela, como se ela fosse um poço de doenças, como se ela não fosse digna de andar na mesma calçada, e aí é estranho, estranho e contraditório, sexo e nojo, fazer sexo com alguém por quem se sente nojo, não é estranho?
…
Não falarei apenas da posição de alguns clientes, porque devo dizer que também, para algumas profissionais, o leproso é o cliente. Serve o dinheiro dele, mas não serve mais nada, “Já está? Então adeus, já vai tarde.”
…
E se for para ficar olhando para quem é que tem a culpa, quem é que apenas está reagindo à atitude arrogante e esquiva do outro, a gente nunca chega em lado nenhum. De facto, assim penso, a culpa não é de nenhum dos dois, e ao mesmo tempo dos dois, que podiam mudar a situação. A culpa é de uma sociedade misógina, castradora e hipócrita, e as relações entre prostitutas e clientes não são assim tão diferentes - não de todo - das relações entre homens e mulheres. Há boas e más relações entre homens e mulheres, e a relação entre prostitutas e clientes também será um reflexo disso.
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Hoje, 17 de Dezembro, é o Dia Internacional Contra a Violência sobre Trabalhadores do Sexo.
48 trabalhadoras do sexo foram mortas pelo americano Gary Leon Ridgway, e a partir de então o dia 17 de Dezembro se tornou o dia Internacional Contra a Violência sobre Trabalhadores do Sexo. Gary, que pegou prisão perpétua, matava trabalhadoras do sexo porque pensava que nunca seria apanhado.
E, realmente, nem estava completamente errado, digo, podia ser que, se não fosse o grande número de mulheres, nem tivessem dado pela ausência delas. Por quê? Porque quase ninguém se importa.
Falemos sinceramente, sejamos hipócritas mas não tanto: quem se importa, quem realmente se importa com a morte ou a violência sofrida por uma prostituta, diz lá, quem, quem, quem? Eu te respondo: quase ninguém.
E por quê? Eu te digo: porque, quando se trata de violência contra uma ‘prostituta’, a atitude quase geral é de conformismo. “Ah, são ossos do ofício, é um risco que uma mulher dessa vida corre mesmo”, é assim que dizem, como se a violência sofrida fosse uma coisa que tivesse que ser considerada normal, só porque ela é prostituta.
É como se ela quase merecesse isso, é uma prostituta e então está tudo bem, não tem problema.
Estamos falando de mulheres e homens, de seres humanos, não apenas de ‘trabalhadores do sexo’. Estamos falando de pessoas, de vidas humanas, não das suas profissões.
Todavia, o que acontece é que, quando se trata de trabalhadores do sexo, é como se o olhar se tornasse diferente, é como se a violência se tornasse mais “normal” se aplicada a este grupo. Para você está tudo bem matarem os farmacêuticos, desde que não matem os médicos, a profissão faz deles pessoas diferentes, e aí um pode morrer, o outro não… (?!)
É o que acontece com a “prostituta”, todo mundo pensa que a conhece, todo mundo a julga, e todo mundo se acha melhor que ela também. Ela não é digna, é o que todo mundo pensa, e eu tô cansada de ouvir aquela mesma pergunta, se eu não gostaria de ter uma vida mais digna, cacete, eu tenho uma vida digna, eu sou uma pessoa digna, não é o facto de ser escort - ou se fosse o que quer que fosse dentro desta indústria - que muda o que sou, e cá eu só lamento se não me faço de coitadinha como esperavam, só lamento que eu não me ache - porque realmente não sou - pior que ninguém, ou indigna, ou algo do género, pelo contrário, eu me acho uma igual, de igual valor, então guarda o lencinho porque não vai ver lagriminha caindo não, sinto muito.
Mas sim, tenho a total noção de como os trabalhadores do sexo são vistos pela sociedade, ou são os marginais ou são os coitadinhos, mas jamais seres humanos - e que como tal merecem o mesmo respeito e tratamento. Esta última fotografia reflecte o que quero dizer aqui: estou falando de direitos humanos. Porque toda vez que se fala em violência contra trabalhadores do sexo, a primeira coisa que se fala é de uma regularização da profissão, como se só a profissão importasse, como se o trabalhador do sexo só pudesse e devesse ser respeitado se tiver os seus “direitos trabalhistas”, e aí eu lembro de uma colega que uma vez quis ir à polícia dar uma queixa de uma violência sofrida, mas que depois me disse “Como poderei reclamar disso se minha actividade é ilegal?”, no que eu respondi para ela “Sua actividade não é ilegal, só não está regularizada perante a lei, e além disso, antes de atacar a sua actividade, foi você, a sua pessoa que foi atacada, que sofreu uma violência, não é o facto de não ter direitos trabalhistas que implica que com isso você tenha perdido os seus direitos humanos”, porque é isso o que acontece também, a sociedade o tempo todo empurra os trabalhadores do sexo para debaixo do tapete, como se fossem sempre o lixo da rua, que o próprio trabalhador do sexo, muitas vezes, perde a noção do seu valor enquanto gente, antes de ser um profissional, seja de qual área for.
Se você se importa
Como disse, quase ninguém se importa.
Mas, se você se importa, celebre este dia, seja você trabalhador do sexo ou não.
Como? O símbolo desta data é o guarda-chuva vermelho, como podem ver nas imagens desse post. Se tiver um blog, escreva sobre isso, ou insira a imagem, ou então substitua a sua foto por um guarda-chuva vermelho nas redes sociais.
Abaixo alguns links onde podem saber mais da história desta data, ou pegar as imagens de guarda-chuvas vermelhos.
1- À Alexandra Oliveira, que lembrou da data antes de todo mundo e forneceu os links acima.
2- Ao GAT.
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.
Ainda pensei em me auto-convidar - assim mesmo na cara dura - para um dia ir com eles em alguma ronda nocturna, digo, ia perguntar se um dia eles permitiam que eu fosse com eles. Mas depois pensei melhor e acho que talvez não seja uma boa ideia. A questão é que, dentro do sector, há uma ideia - na minha opinião errada - de que uma menina que faz deslocações a hotéis é melhor que aquela que trabalha na rua, e não é nada disso, é todo mundo igual, é todo mundo gente, igualzinho igualzinho, não tem ninguém melhor que ninguém aqui não, mas tenho o receio quanto a isto, de parecer que estou em outro patamar ou coisa assim, quando estamos todas no mesmo barco, na mesma margem do rio, apenas em partes diferentes desse rio.
…
Você pode ver essa “diferença” da qual estou falando quando lê as notícias nos jornais. Quando se fala de alguém que cobra centenas ou até milhares de euros, a imprensa fala como se fosse algo bonito, quase te convidando para entrar nessa. Quando é sobre dezenas de euros, sempre aquela imagem tentando reduzir a profissional. Reparem bem…
…
Não estou dizendo que não tem diferença nenhuma uma rapidinha num carro e um encontro de 2, 3 horas, em que as pessoas se conhecem, conversam, etc. Estou dizendo, apenas, que não é o valor cobrado que faz alguma diferença e que, acima de tudo, todas as pessoas merecem ser respeitadas de forma igual.
Paula Lee é blogueira, autora do livro Alugo o meu Corpo e acompanhante. Enquanto escort atende em Lisboa diariamente, para marcar encontro deve ligar de um telemóvel identificado para o +351 967262559.