Contos eróticos de uma garota de programa



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Quem muito espera, um dia... cansa


«Não quero mais saber de ti», disse e depois desliguei o telefone na cara dele.

... Era a primeira vez que tomava coragem de fazer algo tão brusco.

Até então a nossa história era um "(não) Vale-a-pena-ver-de-novo", aquela mesma novela, os capítulos repetidos, o final que todo mundo ainda lembra qual foi, a única diferença de que a nossa não tinha final feliz... porque nem tinha chegado ao fim.

A nossa novela era eu aqui, esperando, e ele sabe-se lá onde. Nem um telefonema ou sinal de fumaça, não ligava nem mesmo para desmarcar inventando uma desculpa, apenas sumia, dias e dias sem uma notícia, e depois aparece, semanas depois - uma vez sumiu por dois meses - como se nada tivesse acontecido.

Eu, idiota, sempre a aceitá-lo de novo. Na teoria até sei, devia fazer diferente, me impor, mostrar que tenho uma vida, que não vivo à sua disposição. E naqueles dias - semanas ou meses - decoro tudo o que vou lhe dizer, e falo com as amigas, e choro mil vezes a mesma lágrima, dessa vez acabou... mas basta ele abrir a porta, nem precisa estalar os dedos já estou com ele de novo.

Às vezes - raro, mas já aconteceu - inventa uma desculpa, e mesmo sendo esfarrapada acredito como verdade. Não finjo que acredito, apesar de no fundo saber que é mentira; acredito porque quero acreditar.

Apesar de ser mentira é esta a sua verdade... e a minha.

E depois chegam as amigas, "Desculpe, mas você acreditou nisso? Ele está te enrolando...", e eu juro de pés juntos que é verdade, falo do olhar sincero dele, elas me mostram os fios soltos e eu acrescento detalhes que possam fazer com que a sua história pareça mais lógica, se calhar até penso que estão com inveja, mas jamais coloco em causa o que ele me diz, a sua mentira me conforta ao mesmo tempo que me tortura.

Mas na maioria das vezes o Tiago nem se dá ao trabalho de dar uma explicação. E vira o jogo, "Não confia em mim? Porque se não confia, é melhor terminarmos logo o nosso relacionamento", e eu, ai como sou idiota, sinto culpa e vergonha, peço que me perdoe, tento abraçá-lo, ele vira a cara se fazendo de ofendido, então passo os dedos pelas suas costas, fico em silêncio como criança arrependida, e quando a zanga - dele - passa a gente volta a ser o que era, ou o que somos em tão pouco tempo.

Quando de novo some as ideias voltam, as desconfianças e também a culpa por desconfiar dele.

Mas eu sei, eu sei de tudo, mas não quero saber.

Outra vez no colo das amigas elas voltam a dizer "Esse cara não te merece, arranja outro, a fila tem que andar", mas não consigo estar com alguém com outro na cabeça, e além disso o meu ânimo para sair à procura é tanto que certamente me darão por invisível.

O Reinaldo conheci numa dessas andanças, mas estávamos os dois a sofrer, eu de um lado e ele de outro, por pessoas diferentes. Era perfeito em tudo, nos gestos, no olhar, na ternura, e até mais bonito que o Tiago... mas naquela época eu e ele éramos apenas a metade de outras pessoas.

Então voltam os desabafos sobre o Tiago, confesso que o odeio, elas me dão apoio em tudo o que digo, vou repetindo os defeitos dele, o sofrimento que já me causou, a angústia. Gosto que repitam todos os defeitos que ele tem, é como se estivessem ao meu lado e a solidão fosse menor.
...É como se tivesse razão por sentir o que sinto, se é que os sentimentos têm alguma razão.

«Eu tenho sentimentos, seu canalha!», quantas vezes não cheguei a lhe dizer?!

Preciso repetir mil vezes que o odeio, talvez um dia me convença.

E outra vez decoro o que vou falar, ele no mínimo vai se sentir culpado, penso com ingenuidade... culpa é o que ele menos manifesta.

E quando chega eu só falto lamber os seus pés, os defeitos se transformam em qualidades e tudo o que iria dizer de ruim já não é, exactamente, aquilo que antes sentia. Não minto sufocando as palavras que tantas vezes repeti para as amigas, simplesmente já não o odeio de perto.

Entra jogando a chave sobre a mesa como quem apenas foi ali na esquina comprar um maço de cigarros quando afinal nem fuma, e de repente a pedra que pesava o meu coração derrete e evapora, como se só restasse um choro baixinho, um conforto de saber que a dor já não dói como antes, apesar de ainda estar ali.

Sei que tem uma noiva, até já me mostrou a foto dela na sua carteira. Horrorosa, mocréia, tribufu. Nem é feia, admito, mas sem sal, sem graça alguma, não é dela que sinto ciúmes, mas das outras pessoas com quem ele pode estar quando some. Minhas amigas têm razão, se trai a noiva comigo, também me trai com outras pessoas... Por que deveria acreditar que seria diferente? Mas acredito, só desacreditando quando estou com raiva porque está longe.

Mas volta para os meus braços e volta a ser todo meu. E volta a ser perfeito como nunca o foi à distância.

Nem sei o que ele tem ou me faz. Sei que chega em casa, joga as chaves na mesa, lembro que esteve sumido, ele não quer discutir, vai para o banho e enxuga o corpo com a minha toalha, depois abre o armário, veste um short, suas pernas musculadas desfilam pela casa, pega uma maçã no cesto de frutas, parece morder com todos os dentes, mastiga e vejo os músculos da sua cara se movimentando, e é aí que me perco.

Certamente nota o meu tesão misturado com desespero, porque minhas palavras tropeçam, só consigo olhar para os músculos da sua cara, aquela boca devorando a maçã com vontade e ao mesmo tempo com desprezo, é uma maçã saborosa e também apenas mais uma maçã.

Então se deita na cama e liga a tv, fica a mudar os canais para ver se encontra algo, continua mastigando a maçã, põe a mão sobre o short para mudar o pénis de lugar, estica as pernas e finge que não existo.

Pergunto se quer mesmo assistir tv e ele diz que na casa da noiva há mais canais. «Mas ela não te dá o que eu te dou», penso em dizer, mas tenho medo que ele entenda como uma pergunta e resolva me contrariar. Sádico.

Fico em silêncio, não vamos brigar por causa da televisão. «Então fique com a porra dos canais da casa da sua noiva!», é o que grito por dentro, mas o grito não sai. As chaves que ele joga na mesa quando chega são capazes de emitir maior som que a minha voz.

Não tira os olhos da tv e nem me encara de frente, sinal que também não quer discutir.

Encerro qualquer início de discussão porque não há tempo a perder, ainda mais quando no fundo sei que desconheço quando irei tê-lo só para mim de novo.

O que sinto não é apenas tesão, mas saudade. Quero invadir o seu corpo porque é a única prova que tenho de que realmente está comigo.

Então nos beijamos e eu já me excito.

"Senti a sua falta", é a primeira vez que me diz algo gentil desde que chegou. Não vou discutir dizendo que só sentiu a minha falta porque era ele a estar ausente, agora não importa mais.

Abre o zíper da minha calça e me acaricia, depois nos chupamos um ao outro e ele se põe de quatro para mim.

Não é dessa vez que passa a noite comigo, pergunto se não prefere ir pela manhã, "tenho que ir", ele responde seco, veste as calças e vai embora, pergunto quando volta e ele não responde, mas eu sei, sempre volta. Ou não sei.

Cheiro o meu short que ele usou e depois o visto, quero continuar sentindo o cheiro dele no meu corpo.

O telefone toca e não é ele, mas Reinaldo, quando nos conhecemos nenhum dos dois estava bem, mas pelo menos me ouviu... Fez o convite para um copo e decido aceitar, assim distraio a cabeça e controlo a ansiedade que já sinto pelo próximo encontro com o Tiago, quando foi ainda naquela manhã que tinha ido embora.

Pode ser que volte no sábado, dentro de uma semana ou dois meses, ou que não volte nunca mais. Como pode ser que, quando se lembre de voltar, já não me encontre.

Tanto tempo estive possuído pela paixão que agora, ao vê-lo na rua tão magro e com a barba para fazer já não o reconheço. Disse que a noiva o deixou, e eu também, mas não vou me sentir culpado. Dessa vez não.

Agora estou bem, melhor que nunca, mas ainda me recordo do que vivemos e choro por dentro pelo que poderia ter sido e não foi.

Mas estou muito melhor e não penso em voltar, nem se me desse agora tudo aquilo que devia ter dado na hora certa.

«Não quero mais saber de ti», disse e depois desliguei o telefone na cara dele.

... Ele pensou que era brincadeira mas eu nunca tinha falado tão sério. Tão sério que até me convenci, e era o que precisava para me sentir livre para o amor.

Durante todo o tempo pensei que era eu que precisava dele, quando ele que precisava de mim e me procurava quando sentia falta.

Hoje descobri que sou e posso mais, que inclusive posso amar quem me ama, alguém que precisa de mim da mesma forma que eu.

A casa ficou vazia e hoje tem novos donos, assim como o meu coração. Não precisava do Tiago ou de qualquer outro homem, assim como hoje não preciso apenas do Reinaldo.

... O que preciso é de amor. O que preciso é de amar sem ficar sentado numa fila de espera.

Deixei de viver de mentira e agora amo e me sinto amado.

Mentiria se dissesse que foi fácil tomar a decisão. Mentiria ainda mais se dissesse que foi fácil esquecer o Tiago, principalmente quando ele pediu para voltar, largado pela noiva.

... Podia ser todo meu agora, bastava eu querer.

«Agora que estou livre já não me quer?» - ele dava a sua última cartada. «Você nunca foi livre, Tiago, nem agora.» - foi o que respondi, depois virei as costas.

Nada melhor do que o sofrimento para nos fazer respeitar o sofrimento alheio. Reinaldo tinha sofrido, por isso me entendia tão bem. Entendia inclusive aquilo que eu negava, precisava de algo que me acordasse das minhas ilusões. Já tinha se esquecido do seu ex, mas eu ainda só falava de Tiago. E Reinaldo foi me ouvindo, paciente, dia após dia, e cada vez nos identificávamos mais. De repente eu falava menos no Tiago, assim como ele já nem tocava no nome do seu ex.

... Mas mesmo assim eu conhecia a minha novela, Tiago entraria pelo apartamento jogando a chave na mesa.

Reinaldo trouxe uns filmes, fui buscar as pipocas no microondas e quando volto para a sala ele me empurra para a parede e me tasca um beijo na boca. Não sabia exactamente o que sentir naquela hora, mas fechei os olhos e me deixei levar pelo beijo, que era muito bom. Seu corpo encostava-se ao meu e as pipocas ficavam esparramadas pelo chão. Nada importa.

O filme na nossa frente e nós no sofá, eu sentado e ele de pé, o volume na calça jeans, o meu volume nas minhas calças. Tensão, timidez, insegurança, medo... desde que conheci Tiago nunca estive com outro homem.

E se Tiago chegasse de repente e nos visse assim no sofá, eu sentado e ele de pé com o pénis na minha boca, ou logo depois quando ele se deitou de lado e eu por trás lhe penetrava?

Tive medo, perderia Tiago para sempre, mas ao mesmo tempo era excitante, Tiago chegaria e nos veria em acto de amor, um amor que nunca tinha me dado.

Mas o medo alimentaria o tesão. Não poderia ser medo de perder o Tiago se nunca o tive.

Reinaldo gemia e eu gemia também, ele era perfeito, se entregava como se quisesse colar o meu pénis no seu ânus, e assim poderíamos ficar a vida toda, deitados no sofá assistindo um filme.

Adormecemos naquele sofá aquela noite e na noite seguinte. Tiago afinal nem se deu conta de que tinha me perdido.

Ligo e ele não atende, pensa que virei com cobranças por ter sumido de novo. Quando atendeu fui breve "Não quero mais saber de ti", e desliguei o telefone na cara dele.

O short que ele usou já tinha perdido o cheiro, porque a minha vida agora já tinha outro sabor.

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Quando os olhares de dois desconhecidos se cruzam


Bruno S.: homem de 32 anos, divorciado desde 2004. Fernanda L.: mulher solteira, de 25 anos, que acabava de terminar mais uma relação.

A maior frustração de Bruno foi ver seu casamento ir completamente por água abaixo. O naufrágio da sua vida afectiva e das suas esperanças. Eram cinco anos de convivência, numa paixão fulminante e avassaladora. Idolatrava a esposa. Sempre esteve claro – talvez nunca tão claro como depois do divórcio - que ele era muito mais apaixonado por ela do que o contrário, mas ele acreditava que com o tempo, com o convívio, com as experiências que teriam em conjunto, ele sentiria a mesma reciprocidade amorosa por parte da esposa. Perguntar se era amado na mesma proporção era inútil, e só ajudava a demonstrar a sua insegurança. Apesar de ouvir sempre um sim – às vezes vago ou por vezes dito quase brutalmente, como quem diz «Porra, porque estás a me fazer novamente essa pergunta?» - por que sentia sempre a sensação de que aquela palavra era oca? Porque não era só a palavra oca, mas todos os momentos vividos, que, apesar do seu esforço, das boas gargalhadas que deram em conjunto ou do bom sexo que já tivessem feito, sempre pareciam superficiais.

A maior frustração de Fernanda era ver a sua lista de namorados – e consequentemente sua lista de ex-namorados - crescer, de forma assustadora. “Não é dessa vez que vai se casar” – dizia algum familiar de modo irónico e confiante, num tom que se denunciava como fosse uma das misteriosas profecias de Nostradamus. Quando não era isso, casualmente ouvia piadinhas de alguma amiga, a perguntar se o namorado de quem falava agora era o mesmo da última vez, ou se já era o próximo da concorrida fila. Fernanda não se considerava necessariamente romântica, não idealizava uma relação ao começá-la, por acreditar que tal comportamento só poderia gerar uma ilusão, e não tinha o desejo de viver uma mentira. Era o que tinha aprendido até aqui. Não queria um homem qualquer. Queria alguém especial. Se não deixava de se aventurar em novos relacionamentos, era justamente por acreditar, no fundo, em seu íntimo mais oculto e covardemente disfarçado, que este um dia chegaria. Não precisava ter nenhum cavalo branco, não queria um conto de fadas, mas justamente o contrário: algo verdadeiro, real. Que adiantava ter tantos números de homens apetecíveis e interessantes no seu telemóvel se, quando mais se sentia sozinha, não poderia contar com nenhum deles? Mas se quisesse dar uma queca, nem precisava falar duas vezes. Desejava sim, ter uma relação mais séria, duradoura, porém nunca conseguiu manter qualquer relação por mais de um ano. Não acreditava em karma, mas sua desesperança costumava fazer inclusive que ela duvidasse das suas próprias crenças pessoais.

Durante todo o tempo, Bruno se culpava pelo término da relação. Apesar de ter feito questão de satisfazer todas as vontades da esposa, parecia claro que teria falhado em alguma parte, em alguma altura. Não conseguia lembrar-se de qualquer falha. Sempre fora uma mistura de homem romântico com homem aventureiro. Na cama gostava de inventar formas novas de explorar o corpo da esposa, e, só mesmo se ela fosse uma grande actriz que conseguiria ter fingido daquela forma. Não acreditou, entretanto, quando, no primeiro ano de casamento, num jantar romântico que ele próprio havia preparado para comemorar a data, ela informou, secamente, que queria o divórcio. Ela podia estar cansada, entediada, na TPM, ou sei lá mais o quê. O que não poderia era estar ali, tão fria e distante, pedindo o divórcio num dia que seria tão especial para os dois. Não lhe deu ouvidos, mudou de assunto, cantarolou, falou sobre a comida e sobre a disposição correcta dos talheres, mas não quis ouvi-la, qual um menino mimado que não gostava de ser contrariado. Como ela era 6 anos mais jovem que ele, achou – ou preferiu achar, porque lhe parecia mais conveniente e agradável na altura - mais sensato concluir que seria apenas uma atitude boba e infantil, que passaria logo. O que não parecia sensato era a sua esposa, depois do primeiro ano de casamento, e sem nenhum motivo concreto aparente ou verbalizado, estar a pedir-lhe o divórcio! Depois pensou que, se tivesse lhe dado ouvidos na altura, teria evitado pelo menos o facto de quatro anos mais tarde ter sido humilhado e ridicularizado com a traição. Ou pelo menos tinha sido nessa altura em que a traição foi descoberta, ou melhor, ela mesma contou-lhe, não poupando qualquer detalhe miserável e torturante no seu momento de fúria.

Já a Fernanda não tinha esse tipo de preocupação. Nunca havia se casado, nem nunca tinha chegado tão perto. Em contrapartida suas relações sempre foram muito complicadas e complexas. Suas amigas, na maior parte casadas – porque sempre se casavam antes dela, porque sempre encontravam o tal homem certo… seria ela assim tão azarada ou estaria a procurar no lugar errado, por frequentemente se envolver com pessoas do seu meio, ou aquelas que já conhecia minimamente por uma data de anos? - diziam que ela estava sendo muito exigente com os homens. Deveria se contentar com qualquer Senhor Merdinhas, aturar desaforos e viver insatisfeita, apenas para não levar o título de mulher exigente? “Será que é verdade que sou mesmo tão exigente?” – é o que ela se perguntava, algumas vezes, enquanto se olhava no espelho, na vã tentativa de ter uma conversa com ela própria. Rafael, seu último namorado, havia lhe comprado flores e bombons. Levou-a num restaurante bem frequentado, brindaram com duas taças de vinho. Era o tipo “sedutor-romântico”, o que ela apreciava, por contrastar justamente com a sua própria falta de romantismo, que ela rotulava como “objectividade” ou “senso prático exagerado”. Ou, talvez bem no fundo do seu subconsciente, medo. Medo da entrega, medo de uma nova decepção, medo de demonstrar sentimentos e sair ferida. Uma certa noite depois de tantas outras românticas, depois de saciadas as dúvidas que tinham em relação ao outro, depois de toda a conversa mole, papo, papo, papo, e talvez sem mais nada para conversar… seria a primeira vez que ela fazia o convite para ele subir ao seu apartamento. Até então não tinha acontecido nada de tão quente na relação deles. No máximo alguns beijos cinematográficos, daqueles em que ficamos na dúvida se houve ou não língua. Como tinha terminado uma outra relação muito recentemente, quando o conheceu não quis partir logo para o sexo, pois dizia não estar preparada. Ele ainda nem tinha tocado no assunto, mas ela adiantou-se, não gostava de rodeios, e sabia que um dia esse seria o tema da conversa, ou, senão, seria a intenção clara depois de alguns toques mais picantes e insinuadores. Quando eles subiram pelo elevador e mal acabava de lhe mostrar o seu quarto – tinha mostrado a sala, a casa de banho e a cozinha, não havia mais nada para mostrar além do quarto – ele veio logo com os seus tentáculos, aquelas mãos de polvo em cima dela, agarrando, apertando suas mamas e a seguir colocando uma das mãos entre suas pernas (não exactamente nessa ordem; as mãos pareciam ter se multiplicado e com tamanha surpresa ela não conseguia nem perceber onde exactamente ia sendo tocada). Ela assustou-se. Não devia ser assim tão rápido. Ou talvez porque, na verdade, tenha achado que o seu comportamento na cama fosse idêntico ao seu comportamento no meio social. Dessa vez resolveu ceder, tirando a roupa e atirando-se com ele na cama. Tinha um pénis médio, branco, com a cabeça muito avermelhada. Ele parecia ter tanta pressa que quase se “esquecia” de colocar o preservativo. Estava montada em cima dele, e até estava a ser agradável, quando então ele gritou: “Goza pra mim, minha putinha”. Era a segunda vez que era chamada de puta. Não que fosse contra os jogos de palavras na cama, mas porque sempre lhe pegavam desprevenida. Com o José Carlos, um outro ex, talvez o número 8 ou 9 – não eram assim tantos a ponto de ter que arquivá-los por ordem alfabética - acontecera a mesma coisa. Só foi um pouco diferente, porque com o José Carlos ela não chegou a estar na cama. Ele chamou-lhe de puta justamente por esse motivo: por ela ter terminado a relação, antes mesmo de terem tido a oportunidade do sexo. Ela já havia namorado dois amigos dele – só veio a saber mais tarde que frequentavam a mesma universidade - e não entendia porque alguns homens acreditavam que, por uma mulher ter dado a cona para alguém, teria a obrigação de também dar-lhes a eles. «Minha cona não é comunitária»- praguejava em pensamento. Seu espanto na cama com o Rafael foi porque aquilo não condizia nada com o seu modo de estar, sempre cheio de romantismos. Terminou a relação no próximo encontro. Sentia-se conformada pelo facto de, algumas vezes, ter sido ela a terminar a relação. Namorou o Dênis, um rapaz todo safadinho, um ano atrás. Ele era todo tarado, nunca se importava quando as calças denunciavam seu pau duro, e ficava inclusive a brincar com o próprio nome, dizendo que Dênis rimava com Pénis. Não lhe fazia juras de amor, mas estava confiante de que era um tarado na cama. Fantasiou logo que ele seria um vulcão. Seria um homem que já chega arrancando sua roupa, que vai lambê-la toda, chamar por nomes ordinários, etc. Dessas vez iria preparada e isso era bom. Gostava de ter o controle das coisas, mesmo quando hipoteticamente seria controlada. Mas quando resolveu ir para a cama com ele – não demorou tanto dessa vez, apenas duas semanas depois de saírem, mas ela precocemente acreditava que já conhecia tudo sobre ele desde a primeira meia hora de conversa, porque as demais foram sempre semelhantes, com seus gracejos e exibições - depois de tanta publicidade, outra vez a personalidade não condizia. Ele chegou no quarto, tirou a roupa, e nem mostrou que ajudaria a desabotoar seu sutien. Ficou parada, esperando que ele tomasse alguma atitude, mas ele deitou-se. Foi ela a ter que fazer tudo: a fazer seu pau ficar em pé com o broche – aquele que sempre estava duro quando ele talvez soubesse que não iria ter sexo com ela - a sentar em cima, a balançar, a rebolar. Ele gozou, em silêncio, mas ela fingiu orgasmo. Começou a crer que as pessoas não passam de uma camuflagem, e que não expressam na personalidade o que são sexualmente.

Bruno por vezes era arrastado pelos amigos, que diziam que ele teria que dar uma queca rapidamente, e esquecer a ex-mulher. Fernanda isolou-se no seu apartamento, acreditando que o erro estaria nela. Ao mesmo tempo, não suportaria uma relação apenas para mostrar para os outros que alguma coisa tinha dado certo.

Estariam os dois tão decepcionados com os seus parceiros a ponto de não desejarem mais qualquer contacto sexual? Não. Não é apenas o orgasmo que fazia falta. Este consegue-se também sozinho. Por vezes, até sem muito trabalho, bastando comprar os acessórios certos numa boa sexshop. Mas o sexo fazia falta porque o que necessitavam era do toque. Sentir que é desejado por alguém, desejar alguém. A penetração é uma consequência desse desejo arrebatador. Não é só sexo, orgasmo, desejo, mas a carência e a solidão pessoal, de sempre esperar encontrar alguém diferente, alguém que combine, que complete, e até mesmo que rime, mas nunca ridiculamente como Dénis com Pénis. Amor rima com dor, mas não era exactamente o que queriam. Sabiam que não existe amor sem dor, mas que existe dor sem amor. Entretanto, porque quando há amor com dor, parece sempre haver mais dor que amor? Por que será que a dor parece ser tão forte, e parece machucar tanto que o amor parece misturar-se com ela, até que tudo um dia seja apenas dor? «É porque ainda não é possivelmente Amor.» - conjecturavam os seus pensamentos noctívagos mais profundos, enquanto viravam-se de um lado para o outro em suas camas frias e solitárias ou quando caminhavam sem rumo na escuridão, absorvidos pela incómoda insónia.

Bruno chegou a ir para a cama com uma mulher, apresentada pelos amigos. Saiu com uma primeira, simpática à primeira vista, faladora, sensual… mas que na cama era fria como uma pedra de gelo. Tudo parecia muito mecânico e artificial nela. Talvez o seu par de peitos de silicone fosse o que ela tinha de mais verdadeiro. Com uma segunda, aspecto tímido e cara de mulher para casar, faltava diálogo. Tudo bem que era apenas sexo, não estava disposto ou preparado psicologicamente para enfrentar um novo casamento, mas precisava da conversa, pelo menos nos pequenos momentos em que não estivessem a fazer sexo. «Quer ler uma revista até que eu esteja novamente com tesão de comê-la?» - não, não seria nada muito agradável nem mesmo usual. Evitou muitas outras mulheres. A terceira – sim, apesar de relutante, houve também uma terceira - era um tanto quanto ríspida. Pagou o hotel, encheu-lhe de mimos… e também encheu-se dela, porque era uma mulher que reclamava imenso da vida, o que até lhe fez cair uma enxurrada de culpa por não ter gostado da companhia da calada. Não entendia porque estava ali metendo numa mulher, sabendo que nem ele nem ela estavam felizes – ou pelo menos realmente felizes - com a companhia um do outro, ou que talvez, longinquamente, apenas o sexo, naquele momento, lhe interessava. Talvez amanhã, nem o sexo com ela interessaria. Procuraria uma outra mulher, porque com aquela não gostava de estar. Continuava a relação sexual, mesmo sendo o prazer apenas físico, porque, afinal, não pararia o sexo depois de ter começado. Parecia contente quando ejaculou e ela pareceu ter um orgasmo – parecia fingido, mas o que isso importava, se não pretendia vê-la novamente? – e sentiu uma sensação de alívio. Mais contente ainda ficou – e saber disso fazia com que sentisse uma profunda cólera – quando ela acabou adormecendo. Quando foi que a vida se tornou assim tão supérflua? Quando foi que o seu tempo deixou de ter valor e agora era tão desperdiçado em momentos tão insignificantes?

Do outro lado da rua, num apartamento de frente para o hotel, Fernanda, depois de ter apagado a luz e acendido uma vela, se masturbava, olhando sua própria sombra na parede. Assim que gozou, relaxando todos os seus músculos, tomou um duche e vestiu uma t-shirt, preta, e uma cueca, branca. Gostava muito de usar tons sóbrios. Pegou um cigarro e foi fumar na janela, enquanto observava pessoas a passar. Ia acompanhando cada pessoa, escolhida ao acaso, até que esta desaparecesse no fim da rua. Via casais apaixonados de todas as idades, e sentiu uma ponta de inveja.

Apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para fechar a janela. Quando levantou os olhos, notou que, numa janela do hotel, mesmo em frente à sua, havia um homem em tronco nu, a olhar para o nada. Acabou não fechando a janela, ficando ali, a contemplá-lo, sem razão específica, até que aqueles olhos se encontraram com os seus. Ficaram se olhando, mas com pensamentos muito longínquos da imagem recebida pelo campo óptico. Quando perceberam que estavam se olhando fixamente, ele ainda tentou disfarçar, incomodado por ela ter notado que ele olhava para ela. Estimulada pelo constrangimento dele, ela manteve seus olhos firmes, penetrantes.

Atrás dele uma desconhecida dormia, depois do sexo.

Sentiu uma excitação diferente, e pela primeira vez ela resolveu fazer uma loucura. “Desce!”- ela dizia sem pronunciar som algum, apenas fazendo um sinal com os braços e movendo os lábios. Meio sem entender, talvez hipnotizado por aqueles olhos tão penetrantes, ele disse que sim com a cabeça. Ambos entraram em busca de suas roupas e desceram. Ela já estava na portaria do hotel, aguardando. Ele ainda foi buscar a carteira e o casaco, tudo o que tinha levado para o hotel.

- Olá. – ela disse, como se fossem velhos conhecidos.

Caminharam até um café, ali perto, às vezes com silêncio ou palavras muito espaçadas, ditas com calma, como se ainda estivessem a reflectir muito antes de cada palavra que seria pronunciada.

- Desculpe, eu não sou de fazer esse tipo de coisas…
- Ainda bem que fez. Eu vi você olhando para a rua, mas tentei disfarçar. Se você não tivesse me chamado, talvez nunca teríamos oportunidade de falar, de estar aqui agora.
- Já reparou em quantas pessoas passam pelas nossas vidas, mas que nunca tivemos oportunidade de falar com elas?

Um silêncio de concordância com a cabeça. Ambos olham para o chão que vai ficando para trás a cada passo. O único som que se ouve, interrompendo aqueles pequenos espaços de silêncio, é o do pequeno salto dos sapatos da Fernanda, que pisavam com delicadeza as pedras da calçada.

- Acho que deve ter me apetecido sair com um desconhecido hoje… - ela riu, e agora parecia mais tímida.
- Às vezes pensamos que conhecemos as pessoas, mas depois percebemos que elas não passam de pessoas desconhecidas.

Foi ela que concordou dessa vez, silenciosamente. Ah, se ele soubesse que esse tinha sido o resumo da sua história!? Ah, se ela soubesse que esse também era o resumo da sua!?

Olharam-se, enquanto brincavam girando o gelo no copo de licor que pediram.

- Gostaria de fazer amor comigo? – ela perguntou de forma calma, suave e directa, cercando seus olhos.
- Hummm… Como? – quase engasgou, tamanha surpresa.
- Gostaria de ir para a cama comigo? – resolveu mudar a abordagem.
- Não sei… - seria ela um prostituta? Pensou em perguntar quanto cobrava, mas achava melhor deixar que ela falasse. Ou seria uma louca qualquer que tinha o marido em casa e queria pregar-lhe uma peça?
- Não sabe??? Quer ou não quer? – voz meiga, voz penetrante… será um jogo de sedução? Seria ela uma mulher que quisesse se vingar de algum ex-namorado pateta, descontando sua fúria no primeiro ser do sexo masculino que encontrasse pela frente?

Apesar da desconfiança, alguma coisa naquele olhar causava a sensação de estar sendo enfeitiçado. Desconhecia o motivo, mas sentia-se estranhamente à vontade para se entregar. Sabia apenas que aquela mulher estranha, que acabava de lhe fazer um convite também estranho (e surpreendente, porque tinha sido sempre ele a abordar as suas “vítimas”, e. quando não, eram os amigos que apresentavam mulheres para que ele seduzisse para o propósito sexual) causava uma grande reacção dentro dele.

- Sim… Quero… Claro que quero, mas…
- Mas?
- Eu nem sei o seu nome.
- Não precisa de saber… Somos dois desconhecidos… E não é o que toda a humanidade é? Não vai ser contando toda a minha vida e ouvindo a sua história que nos tornaremos pessoas mais confiáveis.
- Você tem razão.
- E tem mais… Eu não estou te pedindo em casamento… Eu só estou perguntando se você quer ir para a cama comigo.

Era a primeira vez que estava com uma mulher que não lhe pedia nada em troca, que não lhe impunha nada, que era tão frontal e objectiva. Era a primeira vez que a abordagem partia dela, e para isso ele não tinha que ter qualquer trabalho imaginativo para convencê-la a estar na sua companhia. Era ela que pedia, ela que queria, sem conhecê-lo, sem saber nada. Não queria lembrar da mulher fria, aquela que acabava de deixar dormindo no quarto do hotel para vir ao encontro de uma desconhecida. Essa mulher misteriosa, de cabelos castanhos e olhos grandes, com uma tentadora silhueta inegável, queria-o nesse exacto momento. Não se preocuparia com o amanhã antes que este chegasse.

Entraram no elevador e ela apertou o botão do quarto andar. Tirou as chaves de um bolso e abriu a porta, num movimento seguro.

Depois de ter conhecido a sala por poucos segundos, entraram directo para o seu quarto, apenas iluminado por uma vela, e ficaram olhando um para o outro, em silêncio. Suas mãos e as dela pareciam ter vontade própria. Quando percebeu, já tinha despido toda a roupa dela, deixando-a nua, iluminada pela luz da vela.

Despiu-se com sua ajuda e manteve-se nu, na sua frente. Seus olhos se encontram, e suas bocas se tocaram num beijo intenso, como se fosse um beijo desejado desde sempre.

Rodou em volta do seu corpo, beijando-lhe o pescoço e esfregando as mãos na sua cintura. Uma música tocava em suas cabeças, e seus corpos dançavam, nesse mesmo ritmo.

Caminharam até a cama, abraçados, sentindo o corpo nu e quente um do outro. Passou a mão esquerda pelo centro das costas bem delineadas dela e com a outra segurou na sua cintura, deitando-a na cama.

Colocou seu corpo em cima do dela. Estava excitadíssimo, mas queria estar ali a explorar aquele corpo, aquele momento, aquela loucura divinal. Beijou sua boca, beijou seu peito, e depois beijou sua barriga macia e sardenta.

Voltou a beijar sua boca, e tocava o seu grelinho com a mão. Seu corpo se levantava, seguindo o ritmo do seu toque. Pegou-lhe nos ombros, fazendo sinal que se deitasse de costas. A respiração dela parecia música.

Seu rabo era macio e sedoso, e, deitando levemente por cima do seu corpo, seu pau ficava se encaixando no seu rego.

Viu um frasco de óleo na sua cabeceira. Encheu as mãos com aquele óleo e começou a lambuzar-lhe as costas, fazendo uma massagem delicada e depois aumentando a intensidade. Colocou seu cabelo para o lado, e também espalhou óleo no seu pescoço. Desceu as mãos pelas suas costelas, e depois subiu. Ela sentia o peso daquelas mãos deslizando pelo seu corpo. Ele desceu um pouco mais, apalpando e acariciando o seu rabo, passando óleo até no seu rego, com um dedo só, e depois passando óleo no seu cuzinho. Desceu mais, apoiando uma mão em cada perna, fazendo com que elas recebessem todo aquele óleo. Levantou seus pezinhos na altura da sua boca, e começou a beijar-lhes, lambendo alguns dedos com a ponta da língua. Depois acariciou com óleo, cada pedacinho delicado daquele pé de tamanho 36. Deitou seus pés novamente na cama. Acariciou a planta do pé, foi subindo, chegou ao joelho, subiu mais, e estava novamente no seu rabo. Acariciou seu cuzinho outra vez, e excitava-se cada vez mais observando seus pêlos se arrepiarem.

Desceu a mão direita e colocou debaixo da sua coninha. Levantou o dedo indicador e deixou no meio do seu clitóris, e ela ficou ralando seu grelinho nele, enquanto ele lhe acariciava o rabo com a outra mão. Com braços ágeis, virou seu corpo de frente, e espalhou óleo por todo o corpo dela, excepto a cona e os seios, que deixaria por último, para seu maior prazer. Espalhou bastante óleo nas suas mãos, e pegou seus seios com suas mãos fortes, e fazia movimentos circulares. Pegou seu pau e colocou no meio deles. Ela segurava-os, e ele sentia seu pau no meio de dois seios molhados de óleo, quentes e desejosos. Desceu até sua coninha, e esteve a passar óleo por ela toda, como se estivesse a untá-la para receber seu membro. Ela respirava, seu peito se levantava, com o pulmão tão cheio de ar.

Penetrou. Sua cona estava quente e húmida. Deitou seu corpo no seu, sentindo o mesmo óleo ir espalhando-se pelo seu próprio corpo. Seus corpos escorregadios arrepiavam, e suas mãos passeavam pelos corpos um do outro, querendo explorar cada pedaço. Ela gemeu, e ele sussurrou no seu ouvido o quanto ela era deliciosa. Meteu e deixou o pénis estar lá dentro por 3 segundos. Levantou um pouco mais e meteu novamente. O corpo dela subia e descia junto com o seu. Suas respirações aceleravam, até que então explodiram num grande orgasmo.

Deitaram e dormiram depois de muito tempo de trocas cúmplices de olhares, ainda ouvindo aquela música imaginária que parecia tocar. Não se preocupou com a mulher que dormia no hotel. A diária do hotel estava paga, e não ia se preocupar com aquela noite angustiante que tivera, se agora havia tido – de forma física e até mesmo espiritual – a melhor experiência sexual da sua vida. Uma comunhão de dois corpos, e também de duas almas.

Bruno concluiu que seu erro tinha sido o seu egoísmo. Ao mesmo tempo que tentava agradar a ex-esposa, no fundo esperava sempre um retorno. Esse retorno era sempre mais importante do que propriamente as sensações ou os sentimentos dela. Agora com aquela mulher, nua do lado, com a alma despida naqueles olhos transparentes, compreendia o vazio das relações descartáveis, do tempo perdido em momentos que não podiam ser reciclados. Mas se não podia voltar atrás, podia pensar no momento actual, em que o sentimento absoluto de estar completo reinava.

Fernanda, explorando cada segundo daquele momento de êxtase, notou qual tinha sido o seu erro fatídico nas relações anteriores. Assim como quando olhava pela janela, observando pessoas e casais, esteve sempre a olhar para baixo, enquanto que, para encontrar a felicidade, bastava ter olhado para a frente.

Amante Profissional

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Masturbo-me, logo existo... sexualmente


Algo me incomodava: o que seria o prazer? O que seria esta capacidade que algumas mulheres diziam ter de conseguir orgasmos múltiplos? Onde estaria o danado do ponto G? Escondido no armário, camuflado, ou simplesmente não existia e eu era uma anormalidade, segundo as ideias que tanto vendem hoje as revistas? Porque eu por vezes sentia sensações tão diversas com homens diferentes? Seria o pénis assim tão importante? Seria eu capaz de gozar sem o pénis? Porque eu parecia gozar com alguns homens e não com outros? Por que, conversando com algumas mulheres, as definições e opiniões pareciam diferentes, ou por que algumas tinham mais facilidades que as outras para atingir o orgasmo? Por que, por vezes, ser chupada me dava mais prazer que a penetração? Ou porque, com alguns, eu sentia mais a necessidade da penetração do que dos preliminares? E se um dia eu tivesse vontade de gozar e não tivesse um homem do meu lado?

Tantas perguntas, tão poucas respostas sensatas. Ou respostas tão bem definidas, mas que não se encaixavam na prática. Sexo estudado cientificamente. Sexo na teoria. Sexo explicado por psicólogos de maneira tão distante e formal, como se eles também não fizessem sexo. Como se não fosse através do sexo que eles tivessem nascido.

Foi então que eu decidi que só poderia haver uma coisa a fazer: descobrir o desconhecido. Melhor dizendo, masturbar-me.

Comecei por acariciar o meu corpo, de cima à baixo. Qual seria a intensidade que eu gostava de ser tocada? Primeiro toques leves, depois toques mais intensos, enquanto me despia em frente ao espelho pendurado na parede. Com 4 velas aromáticas acesas, além da minha imagem à meia-luz eu também via as minhas sombras, e isto começou a me excitar.

Desci meu corpo até os pés, sem dobrar os joelhos, e desamarrei minhas sandálias. Tirando pé por pé de dentro daquele salto que me fazia tão mais alta, joguei as sandálias para o canto da parede. As calças escorregavam, mas não tirei-as completamente. Senti o tecido a deslizar, os meus pêlos a se arrepiarem. Deslizei minhas mãos, tomando o cuidado de também ir tirando meus pesados anéis dos dedos. Fiquei de costas para o espelho, segurando um outro espelho menor na minha mão. Como eu era vista de costas? Como me viam? Quais os ângulos e movimentos que mais me favoreciam, ou que faziam que eu parecesse mais sensual? Tinha mesmo um belo rabo. Comecei ali a sentir atracção pelo meu corpo. Quase tive uma relação lésbica comigo mesma.

O pequeno espelho ficou no chão, num canto da parede, enquanto continuei a me conhecer. «Olá, muito prazer» - eu dizia-me. «Hoje você será toda minha». Não havia som como resposta. Não ouvia o meu próprio eco. Mas conseguia ler os meus lábios. Não tinha uma resposta verbal, mas os olhos que via só diziam uma coisa: «eu te desejo».

Era o momento ideal. Química havia entre mim e o espelho. Desabotoei cada botão da minha t-shirt. Não queria tirar tudo de uma vez. Eu queria seduzir-me. Ainda com o sutien, continuei a acariciar todo o meu corpo, e a rebolar no ritmo dos toques que eu me dava. Uma música lenta no fundo fazia com que meu corpo dançasse.

Enfiei a mão por dentro do sutien, puxando por um peito para fora. Era lindo. Comecei a tocá-lo com a intensidade que me fazia sentir prazer. Tirei o sutien. Deu vontade de chupá-los, mas o máximo que conseguia era passar a ponta da minha língua nos biquinhos dos mamilos. Então humedeci dois dedos e estive a brincar com os bicos dos meus peitos, que logo ficavam arrepiados.

Ali tinha encontrado minha primeira zona erógena. Até os pêlos do meu pescoço se arrepiavam.

Tirei a cueca. Estava ali, completamente nua, completamente desejosa. Voltei a pegar no espelho menor, que deixei encostado na parede. Coloquei debaixo das minhas pernas. Coloquei em várias posições. Queria ver o que o homem via em cada posição que me fodia. Voltei a colocar o espelho no chão do canto da parede e retornei para o espelho grande pendurado. Comecei a tocar-me na frente do espelho. Movimentos horizontais ou verticais no clitóris? Notei que os movimentos horizontais me pareciam mais excitantes. Continuei a masturbar-me em frente ao espelho. O que eu sentia e pensava? Sentia que estava entregue, pensava que estava a ser fodida. Um eco dentro de mim dizia: «Caralho, eu sou mesmo muito boa!»

Tive vontade de ir movimentando a anca para a frente, coisa que ainda não tinha feito com ninguém durante o acto sexual. Aquilo me deu cada vez maior prazer. Comecei a sentir-me cada vez mais excitada, a cada vez que aumentava o ritmo, que quase já o fazia involuntariamente. Meus dedos faziam movimentos a correr na horizontal, de um lado ao outro do clitóris. Não era um movimento muito forte nem muito leve. Era o movimento que eu acabava de descobrir que me dava prazer. Sinto o ritmo cardíaco acelerar. Minhas pernas estão erectas, mas eu tenho vontade de curvá-las, mas não faço, porque tudo o que penso é «Quero gozar, quero gozar, quero gozar.» De repente, sinto um prazer enorme me possuir, como se um ar quente estivesse dentro de mim. Começo a me contorcer, tanto que acabo tirando os dedos do clitóris e curvo a barriga para frente. Acabava de ter, sozinha, o meu primeiro orgasmo. Acabava de recebê-lo, ao mesmo tempo que acabava de dá-lo a mim mesma. Coloco um dedo perto da minha vagina e vejo que ela está muito molhada.

Viciei-me na masturbação, tanto que passei a praticá-la todos os dias. Como eu não tinha descoberto isto antes?

Passei a me masturbar fazendo variações. De princípio, variando as posições. Minha segunda masturbação foi deitada na cama. Tirei a minha roupa, depois de ter tomado um banho e ter me perfumado. Preparei-me para mim. Se o fazia para os homens com quem me deitava, porque não faria por mim mesma? Coloquei um lençol de seda, que, apesar de deslizar, era delicioso ter por debaixo da pele. Passeei minhas costas pelo lençol. Virei-me de barriga para baixo e deslizei todo o meu corpo ali. Em dado momento, simulei que tinha um homem por baixo de mim, e comecei a bater com a minha cona no lençol. Os bicos do meu peito se arrepiavam toda vez que eu os passava no lençol, de leve, quase que como fosse sem querer.

Deitei-me novamente com as costas no lençol e comecei a me tocar. Nuca, rosto, pescoço, mãos cruzadas sob o peito para tocar nos ombros, uma mão em cada peito, uma mão no peito e outra fazendo movimentos circulares na barriga, até chegar onde queria: o meu clitóris.

Experimentei também me masturbar virada para o lençol, com o braço espremido debaixo do meu corpo, minha mão desesperada a tocar meu clitóris. Sempre sensações diferentes, mas que sempre me garantiram um novo orgasmo.

Um dia eu quis saber como funcionava o meu corpo por dentro quando atingia o orgasmo. Conhecia o que acontecia por fora: ritmo cardíaco acelerado, calor, contorcia o corpo, quase como se tivesse epilepsia, tremia, sentia a boca seca, enquanto a vagina parecia molhada, uma vontade desesperada de fechar as pernas. Então, enquanto com uma mão eu me masturbava, um dedo da outra mão eu enfiava na vagina. No momento do orgasmo eu senti: latejava por dentro, quase que como se fosse espremer o meu próprio dedo. Sem ter qualquer tipo de nojo de mim mesma, coloquei o dedo na minha boca: meu orgasmo era doce.

Também experimentei me masturbar com o meu vibrador. Tocava meu clitóris enquanto deixava o vibrador dentro de mim. Vibração ligada, uma mão ajudando a enfiar e tirar. Outra mão no clitóris, fazendo os movimentos que tanto me deliravam.

Quis também experimentar masturbar-me com pensamentos diferentes, daqueles que a gente não confessa para ninguém, ou aqueles que a gente só se excita enquanto fantasia, mas que não teria coragem de realizar. Pensei que estava sendo fodida de forma selvagem. N’outro dia, pensei que fazia amor, criando toda a história na minha cabeça. Em outra altura, pensei que um homem me fodia de quatro, enquanto uma mulher, deitada por baixo de mim e com a cabeça virada para as minhas pernas, lambia o meu clitóris. Fiz caras e bocas enquanto chupava o meu vibrador, enquanto imaginava que chupava um homem que estava em pé na minha frente, enquanto outro, ajoelhado no tapete de frente da cama, me chupava o clitóris. Cheguei mesmo a me masturbar de pé, pensando que eu era um homem e alguém me fazia um broche. Fodi com a fria parede do meu quarto, ralando meu corpo nela, enquanto me masturbava. Encostava e fugia da parede, mas sempre lá voltava, mais cheia de tesão.

Mudei também os ambientes. Me masturbei na sala, enquanto assistia um filme erótico. Me masturbei na casa de banho, usando a velocidade da água do chuveirinho. Me masturbei dentro do metro, tomando o cuidado de colocar um grande casaco por cima das minhas pernas.

Descobri que a masturbação e o sexo com alguém eram coisas paralelas, mas que mesmo assim se complementavam. Depois da masturbação, consegui conduzir um homem para que me tocasse das formas que eu gostava, ou consegui incentivá-lo a dar-me mais prazer. Consegui soltar-me mais, porque eu vi que, nas outras vezes, parecia sempre que o prazer dele era mais importante que o meu. Como não havia qualquer tipo de pressão, e conhecia bem o meu corpo, era muito mais fácil ter orgasmo com outros homens. O que não impedia que, com um egoísta ou outro, eu não conseguisse chegar ao orgasmo. Mas não me importava. Ia para a casa de banho e me masturbava, quando não me masturbava ali, à frente dele. Ensinei alguns a me masturbarem. Ensinei que, se encontrarem o ponto certo, a velocidade e intensidade certa, deveriam manter o mesmo ritmo. Senão, era o mesmo que, caso eu fosse um homem, meu pau caísse e já não conseguisse se levantar, por mais que toda a cena fosse apelativa ao tesão.

Tinha alturas em que ficava tão excitada que acabava sendo natural conseguir orgasmos múltiplos. As sensações continuaram a ser diversas, por vezes até mais intensas, de acordo com a forma que era tocada e explorada. Vi que o pénis era sim importante, mas não era essencial. Se não fosse importante, eu viveria de masturbação. Se fosse essencial, eu não conseguiria um orgasmo sem o pénis. Vi que o mais importante no sexo não era a penetração, mas todo aquele jogo de sedução, todo o acto de querer proporcionar prazer um ao outro, toda uma entrega, os toques, os cheiros, as sensações, o carinho, a sedução. Descobri que, se com alguns homens eu tinha sensações diferentes, era simplesmente porque a abordagem ao sexo tinha sido diferente. Ou porque havia ou faltava química. Ou porque havia mais entrega de um do que do outro. Ou porque uns conseguiam me tocar nas minhas zonas erógenas enquanto outros me tocavam em áreas em que eles acreditavam ser estas minhas zonas erógenas. Ou porque me tocavam em zonas que apenas davam prazer para eles, e não para mim. Não importa qual a razão. O importante era eu saber identificar a razão do prazer com cada tipo de parceiro. Alguns, com um simples toque, quando dado na intensidade certa ou no local certo, ou às vezes apenas um olhar provocante, fazia com que eu sentisse tesão. Enquanto com outros o processo era mais lento, porque envolve um aprendizado sobre o corpo do outro.

Em relação às outras mulheres, nunca pode haver uma comparação. Cada uma tem um corpo diferente, sentimentos, desejos, formas de explorá-lo.

E o melhor atributo que a masturbação me conferiu foi este: como eu poderia exigir que conhecessem o meu corpo, antes de eu mesma conhecê-lo?

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